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Cultura Mosaico©

Patrícia Nogueira da Silva

Escola Superior de Jornalismo do Porto

Abril de 2002

 

   
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Cultura Mosaico

 
 

Esta denominação, habitual na Sociologia da Cultura de Massas, provém da análise Sociodinâmica de Abraham Moles, dentro de uma corrente de investigação da comunicação e da cultura na sociedade de consumo.

A obra de Moles sintetiza o modelo cibernético-sistémico com a temática da estética-comunicativa, de forma a enquadrar a sua perspectiva no estudo dos meios de comunicação social e numa dinâmica cultural de (e para) Massas.

 Para Abraham Moles, a sua obra a Sociodinâmica da Cultura define-se como o conjunto de sistemas e subsistemas nos quais influem nos circuitos das mensagens e nos processos comunicativos, educativos e culturais. Mas, nas sociedades pós-industriais, esta Sociodinâmica alterou-se de forma substancial. Esta investigação diz respeito, não só à interconexão de mensagens e circuitos, mas sobretudo ao tipo de modelo de conformismo que está a substituir e a neutralizar as tradições culturais de carácter humanista.

 A contraposição entre estes dois modelos – cultura clássica e humanista e cultura mass mediática e em “mosaico” – constitui a argumentação central da análise Sociodinâmica. Desta forma, a cultura humanista define-se por:

- ser uma rede de conhecimentos estruturados;

- distingue-se e enfatiza os assuntos e questões principais e secundários que eram apresentados coerentemente com os seus precedentes através de uma compreensão discursiva lógica e racional.

Assim surgia um ponto de vista enciclopédico e global em que se articulavam as funções quantitativas e qualitativas do conhecimento, limitado unicamente pelas possibilidades naturais da inteligência humana. No entanto, também se suponha uma valorização das línguas clássicas como caminho para penetrar no reino das ideias. A cultura humanista, de claro referente filológico, tratará de retornar às ideias da sociedade greco-latina.

 Em suma, este modelo cultural pode-se descrever como: racional, dialético, crítico e histórico, confrontando o “ser” e o “dever ser” numa tensão permanente e que possibilita o progresso social, cultural e político. Moles, por conseguinte, comparará as pautas racional-humanistas com as do tipo comunicativo. Nas primeiras, a educação teria uma importância básica como organizadora da cosmovisão social. Nas segundas, as “palavras vazias”, adquiridas por meio dos canais de comunicação de massas, ordenam-se em constelações de atributos para que progressivamente o indivíduo vá sendo capaz de as utilizar em enunciados compatíveis com os critérios do pensamento pragmático-ideológico dominante.

 A ruptura dos nexos causais e racionais (do ponto de vista dos processos perceptivos e cognitivos) das mensagens dos mass media provocará  a génese de marcos do pensamento, onde a sua Sociodinâmica cultural será denominada por Moles como cultura mosaico ou cultura em mosaico.

 Abraham Moles assegura que o papel da cultura consiste em proporcionar ao indivíduo um conjunto de conceitos sobre o qual este projecta e ordena as suas percepções do mundo exterior. Na cultura clássica, o raciocínio lógico harmonizava esse conjunto de conhecimentos, dando uma coerência racional ao apreendido. Ao contrário, na cultura mosaico esse conjunto de conhecimentos tem um aspecto aleatório porque se apresenta como um rol de fragmentos, por justaposição, onde nenhuma ideia é forçosamente geral e onde muitas ideias são importantes. Deste modo, as conexões lógicas foram substituídas por um processo de tentativa e erro em que a integração das percepções leva a cabo um modelo atomizado de conteúdos.

Reiterando o modelo sistémico, Moles pergunta-se se é possível descobrir a organização da rede de conhecimentos humanos; ou seja, o acesso à cultura e os seus possíveis níveis operativos. Segundo a Sociodinâmica, existem quadros socioculturais que recorrem a processos de conformação cognitiva: os "quadros de conhecimento" e os "quadros socioculturais".

O primeiro nível actua no que Moles considera como “memória do mundo”, em contraposição com o segundo que, na cultura mosaico, se conceptualiza como "o fluxo permanente dos meios de comunicação de massas". O fluxo de mensagens comunicativas anula os "quadros de conhecimento" e substitui-os pelos "quadros socioculturais" dos esquemas de opinião dos media.

 Tudo se baseia na comparação entre as dimensões das estruturas e os seus quadros sociais nos modelos humanista-racionais e no dos mass media. Assim, a conexão entre o quadro sociocultural e a acção dos meios de comunicação de massas leva a uma alucinação sobre as magnitudes "universais" que o mundo exterior, como prática quotidiana dos mass media, oferece ao indivíduo. Segundo Moles, ditas magnitudes representam a importância quantitativa objectiva adquirida pelo sujeito. Assim sendo, a acção dos meios comunicativos, mediante o peso do quadro sociocultural na cultura pessoal individualizada, assenta numa atomização dos ítems e das magnitudes com as quais  o sujeito identifica as datas. As mensagens associam-se a valores predefinidos com coeficientes de compreensão e de interesse que o receptor põe em funcionamento no consciente. O conjunto de átomos de cultura adquiridos, através dos mass media, é recebido por uma série de indivíduos distintos e de níveis diferenciados e integrado na sua memória, depois de gradações selectivas deixando um resíduo que não é característico da cultura individual.

 É sobre estas gradações que Moles situa os problemas da persuasão e da distorção de conteúdos recebidos pelo receptor. A persuasão, portanto, resulta de uma distorção que incide de forma determinante no grupo social ou na classe de pertença do indivíduo. A penetração dos ítems culturais no grupo social estão em conexão directa com a cultura do próprio grupo. Em suma, a persuasão não é mais do que uma categoria particular de formas mentais estáveis ou supersignos. Persuadir é conhecer a taxa de influência dessas formas na consciência do receptor.

 Na Sociodinâmica da Cultura, a definição principal de persuasão é estabelecida como ruptura do pensamento e da sua lógica. As fontes de raciocínio básico do pensamento fundado na razão desaparecem. A lógica racional desaparece globalmente. E, na persuasão dirigida, a noção de lógica carece de valor. O pensamento racional só intervirá de uma forma fragmentária em curtas sequências de análise que só servem para ligar conceitos próximos entre si no campo do pensamento. Mas, a persuasão actua quando o receptor recebe e aceita a coação psíquica. Essa coação fragmentadora é a cultura mosaico.

 A cultura em mosaico, na Sociodinâmica da Cultura, não só se compõe de mensagens externas ao indivíduo, como, sobretudo, para Moles é um processo determinante de anulação cognitiva. É, essencialemente, este aspecto sobre o que o psicólogo francês faz reacir a sua teoria cultural. Para Moles, as análises “clássicas” da investigação sobre a nova Cultura de Massas, e seus efeitos, - Funcionalismo, Teoria Crítica, Estruturalismo – insistiam no problema da fragmentação, uniformidade ou estanderdização dos seus conteúdos. A Sociodinâmica caracterizada por Moles tem um planeamento inverso. Com efeito, não serão tais conteúdos os fragmentados senão os processos lógicos e cognitivos dos receptores. A cultura mosaico, então, é a destruição da interpretação e compreensão interrelacionadora e causal da realidade. É, portanto, um problema que afecta de um moda directo o sujeito-receptor.

Em resumo, a grande novidade de Moles na Sociologia da Cultura de Massas provém do seu vício sistemático por descrever os processos básicos: as consequências cognitivas da ruptura lógica significativa e intelectual que é a cultura mosaico e a complexa rede de circuitos socioculturais. A Teoria Culturalista sociodinâmica situar-se-á no estudo de quadros socioculturais, nas técnicas de aparência de ítems culturais e, especialmente, nos fenómenos de control cultural articulados na sociedade pós-industrial. Nesta obra, de forma alguma Moles se mostra pessimista ante a implementação da cultura mosaico. Neste sentido, a sua Sociodinâmica porpõe um caminho que segue a grande tradição clássica e humanista: o papel de filósofo e de intelectual como analista e supervisionador da modificação ideológica no espírito humano. Com esta perspectiva, Abraham Moles devolve à Ciências Sociais e Humanas o seu compromisso e responsabilidade como construtoras de uma Sociodinâmica cultural nova e diferente.

 

Bibliografia  
 

MOLES, A.: Art et ordinateur. París, Casterman, 1971.

MOLES, A.: La Comunicación y los Mass-media. Bilbao, Mensajero, 1975.

MOLES, A.:  Teoría de la Información y percepción estética. Madrid, Júcar, 1976.

MOLES, A.: Sociodinámica de la Cultura. Barcelona, Paidós, 1978.

MOLES, A. / ROHMER, E.: Teoría estructural de la Comunicación y Sociedad. México, Trillas, 1983.

WUNENBURGER, J.J.: La raison contradictoire. Science et Philosophie modernes: la pensée du complexe. París, Albin Michel, 1990.

 

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