Esta denominação,
habitual na Sociologia da Cultura de Massas, provém da análise
Sociodinâmica de Abraham Moles, dentro de uma corrente de
investigação da comunicação e da cultura na sociedade de consumo.
A obra de Moles
sintetiza o modelo cibernético-sistémico com a temática da
estética-comunicativa, de forma a enquadrar a sua perspectiva no
estudo dos meios de comunicação social e numa dinâmica cultural de
(e para) Massas.
Para Abraham
Moles, a sua obra a Sociodinâmica da Cultura define-se como o
conjunto de sistemas e subsistemas nos quais influem nos circuitos
das mensagens e nos processos comunicativos, educativos e culturais.
Mas, nas sociedades pós-industriais, esta Sociodinâmica alterou-se
de forma substancial. Esta investigação diz respeito, não só à
interconexão de mensagens e circuitos, mas sobretudo ao tipo de
modelo de conformismo que está a substituir e a neutralizar as
tradições culturais de carácter humanista.
A contraposição
entre estes dois modelos – cultura clássica e humanista e cultura
mass mediática e em “mosaico” – constitui a argumentação central da
análise Sociodinâmica. Desta forma, a cultura humanista define-se
por:
- ser uma rede de
conhecimentos estruturados;
- distingue-se e
enfatiza os assuntos e questões principais e secundários que eram
apresentados coerentemente com os seus precedentes através de uma
compreensão discursiva lógica e racional.
Assim surgia um
ponto de vista enciclopédico e global em que se articulavam as
funções quantitativas e qualitativas do conhecimento, limitado
unicamente pelas possibilidades naturais da inteligência humana. No
entanto, também se suponha uma valorização das línguas clássicas
como caminho para penetrar no reino das ideias. A cultura humanista,
de claro referente filológico, tratará de retornar às ideias da
sociedade greco-latina.
Em suma, este
modelo cultural pode-se descrever como: racional, dialético, crítico
e histórico, confrontando o “ser” e o “dever ser” numa tensão
permanente e que possibilita o progresso social, cultural e político.
Moles, por conseguinte, comparará as pautas racional-humanistas com
as do tipo comunicativo. Nas primeiras, a educação teria uma
importância básica como organizadora da cosmovisão social. Nas
segundas, as “palavras vazias”, adquiridas por meio dos canais de
comunicação de massas, ordenam-se em constelações de atributos para
que progressivamente o indivíduo vá sendo capaz de as utilizar em
enunciados compatíveis com os critérios do pensamento
pragmático-ideológico dominante.
A ruptura dos
nexos causais e racionais (do ponto de vista dos processos
perceptivos e cognitivos) das mensagens dos mass media provocará a
génese de marcos do pensamento, onde a sua Sociodinâmica cultural
será denominada por Moles como cultura mosaico ou cultura em
mosaico.
Abraham Moles
assegura que o papel da cultura consiste em proporcionar ao
indivíduo um conjunto de conceitos sobre o qual este projecta e
ordena as suas percepções do mundo exterior. Na cultura clássica, o
raciocínio lógico harmonizava esse conjunto de conhecimentos, dando
uma coerência racional ao apreendido. Ao contrário, na cultura
mosaico esse conjunto de conhecimentos tem um aspecto aleatório
porque se apresenta como um rol de fragmentos, por justaposição,
onde nenhuma ideia é forçosamente geral e onde muitas ideias são
importantes. Deste modo, as conexões lógicas foram substituídas por
um processo de tentativa e erro em que a integração das percepções
leva a cabo um modelo atomizado de conteúdos.
Reiterando o
modelo sistémico, Moles pergunta-se se é possível descobrir a
organização da rede de conhecimentos humanos; ou seja, o acesso à
cultura e os seus possíveis níveis operativos. Segundo a
Sociodinâmica, existem quadros socioculturais que recorrem a
processos de conformação cognitiva: os "quadros de conhecimento" e
os "quadros socioculturais".
O primeiro nível
actua no que Moles considera como “memória do mundo”, em
contraposição com o segundo que, na cultura mosaico, se
conceptualiza como "o fluxo permanente dos meios de comunicação de
massas". O fluxo de mensagens comunicativas anula os "quadros de
conhecimento" e substitui-os pelos "quadros socioculturais" dos
esquemas de opinião dos media.
Tudo se baseia
na comparação entre as dimensões das estruturas e os seus quadros
sociais nos modelos humanista-racionais e no dos mass media. Assim,
a conexão entre o quadro sociocultural e a acção dos meios de
comunicação de massas leva a uma alucinação sobre as magnitudes "universais"
que o mundo exterior, como prática quotidiana dos mass media,
oferece ao indivíduo. Segundo Moles, ditas magnitudes representam a
importância quantitativa objectiva adquirida pelo sujeito. Assim
sendo, a acção dos meios comunicativos, mediante o peso do quadro
sociocultural na cultura pessoal individualizada, assenta numa
atomização dos ítems e das magnitudes com as quais o sujeito
identifica as datas. As mensagens associam-se a valores predefinidos
com coeficientes de compreensão e de interesse que o receptor põe em
funcionamento no consciente. O conjunto de átomos de cultura
adquiridos, através dos mass media, é recebido por uma série de
indivíduos distintos e de níveis diferenciados e integrado na sua
memória, depois de gradações selectivas deixando um resíduo que não
é característico da cultura individual.
É sobre estas
gradações que Moles situa os problemas da persuasão e da distorção
de conteúdos recebidos pelo receptor. A persuasão, portanto, resulta
de uma distorção que incide de forma determinante no grupo social ou
na classe de pertença do indivíduo. A penetração dos ítems culturais
no grupo social estão em conexão directa com a cultura do próprio
grupo. Em suma, a persuasão não é mais do que uma categoria
particular de formas mentais estáveis ou supersignos. Persuadir é
conhecer a taxa de influência dessas formas na consciência do
receptor.
Na Sociodinâmica
da Cultura, a definição principal de persuasão é estabelecida como
ruptura do pensamento e da sua lógica. As fontes de raciocínio
básico do pensamento fundado na razão desaparecem. A lógica racional
desaparece globalmente. E, na persuasão dirigida, a noção de lógica
carece de valor. O pensamento racional só intervirá de uma forma
fragmentária em curtas sequências de análise que só servem para
ligar conceitos próximos entre si no campo do pensamento. Mas, a
persuasão actua quando o receptor recebe e aceita a coação psíquica.
Essa coação fragmentadora é a cultura mosaico.
A cultura em
mosaico, na Sociodinâmica da Cultura, não só se compõe de mensagens
externas ao indivíduo, como, sobretudo, para Moles é um processo
determinante de anulação cognitiva. É, essencialemente, este aspecto
sobre o que o psicólogo francês faz reacir a sua teoria cultural.
Para Moles, as análises “clássicas” da investigação sobre a nova
Cultura de Massas, e seus efeitos, - Funcionalismo, Teoria Crítica,
Estruturalismo – insistiam no problema da fragmentação, uniformidade
ou estanderdização dos seus conteúdos. A Sociodinâmica caracterizada
por Moles tem um planeamento inverso. Com efeito, não serão tais
conteúdos os fragmentados senão os processos lógicos e cognitivos
dos receptores. A cultura mosaico, então, é a destruição da
interpretação e compreensão interrelacionadora e causal da realidade.
É, portanto, um problema que afecta de um moda directo o sujeito-receptor.
Em resumo, a
grande novidade de Moles na Sociologia da Cultura de Massas provém
do seu vício sistemático por descrever os processos básicos: as
consequências cognitivas da ruptura lógica significativa e
intelectual que é a cultura mosaico e a complexa rede de circuitos
socioculturais. A Teoria Culturalista sociodinâmica situar-se-á no
estudo de quadros socioculturais, nas técnicas de aparência de ítems
culturais e, especialmente, nos fenómenos de control cultural
articulados na sociedade pós-industrial. Nesta obra, de forma alguma
Moles se mostra pessimista ante a implementação da cultura mosaico.
Neste sentido, a sua Sociodinâmica porpõe um caminho que segue a
grande tradição clássica e humanista: o papel de filósofo e de
intelectual como analista e supervisionador da modificação
ideológica no espírito humano. Com esta perspectiva, Abraham Moles
devolve à Ciências Sociais e Humanas o seu compromisso e
responsabilidade como construtoras de uma Sociodinâmica cultural
nova e diferente.