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Política no Feminino©

Patrícia Nogueira da Silva

Escola Superior de Jornalismo do Porto

Maio de 2000

 

 

Introdução

Para além dos números

Obstáculos Políticos

O Modelo Masculino da Política

Falta de Apoio Partidário

Organizações Femininas

Educação e Instrução

O sistema Eleitoral

 

Obstáculos Socio-económicos

Pobreza e Desemprego

Vida Dupla

Obstáculos Psico-Ideológicos

Falta de Confiança

A Percepção "Suja" da Política

O Papel dos Mass Media

Conclusão

 

Introdução

 

 

O aspecto mais simples da uma rede de autoridade que é a política, de ordem, de considerações e de prestígio, na qual os homens estão emaranhados é o lado físico. Todas as sociedades animais apresentam hierarquias em geral baseadas sobre distinções físicas.

Nas sociedades humanas aparece de início a hierarquia sexual. Homens e mulheres nunca tiveram os mesmos direitos, quer civis, quer políticos. A extrema sujeição na qual as mulheres eram mantidas resultava de condições demográficas tradicionais, a saber: a mortalidade infantil era alta. Era absolutamente necessário mantê-las no seu papel de procriadoras, sob pena da extinção do género humano. (1)

Todavia, não parece que as civilizações, mesmo as arcaicas, tenham totalmente negado toda a competência política às mulheres. Curiosamente, foram os regimes monárquicos que, por força do direito dinástico, alçaram as mulheres à autoridade suprema. É digno de nota que os reinos femininos, em geral pelo bom senso das mulheres, foram grandes reinos. Semíramis, Isabel a Católica, Isabel I, Catarina, a Grande, Maria Teresa da Áustria, Vitória foram grandes chefes de Estado.

Pelo temperamento e pela lógica que lhes é peculiar, as mulheres não podem admitir ou compreender a guerra e a violência. Confirma-o o facto de que, quando as nações estão à beira da guerra, as mulheres são afastadas do poder.

Se se quiser que as mulheres participem, enquanto tal, da condução do Estado, será necessário deixar de considerar os seus votos e opiniões como subprodutos do comportamento masculino.

As mulheres representam mais de metade do género humano. A sua representação política adequada requereria que lhes fosse reservada a metade, pelo menos, dos assentos parlamentares e governamentais.

Nos países subdesenvolvidos, cujo traço comum é hoje o aumento demográfico galopante, a sujeição da mulher torna impossível qualquer melhoria. Ela é mantida na antiga servidão, submetida ao casamento precoce, a partos repetidos, ao envelhecimento rápido. O preço dessa ingénua supremacia masculina é pago mediante uma crescente miséria para todos.

 

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Para além dos números

 

 

As mulheres de todo o mundo em qualquer nível socio-político encontram-se sub-representadas nos parlamentos e longe dos lugares chave de decisão. Enquanto o campo político tem características próprias de cada país, um ponto mantém-se comum a todos: é inacessível e inadequado à participação feminina. As mulheres que querem entrar para a política encontram um ambiente político, público, cultural e social pouco favorável e por vezes até hostil.

Mesmo com um olhar superficial sobre as composições políticas em qualquer região fornece a evidência de que as mulheres têm de enfrentar numerosos obstáculos para articularem e criarem os seus interesses.

Quais são os obstáculos que as mulheres enfrentam para entrarem no parlamento? Como podem lidar as mulheres com estes problemas?

Com este trabalho, eu dou um passo em frente para aumentar a representatividade parlamentar efectiva das mulheres, não só pela autoconsciencialização como identificando os problemas comuns que a mulher enfrenta.

Podemos categorizar os problemas em três áreas: políticos, socioeconómicos, ideológicos e psicossociológicos (ou socio culturais).

 

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Obstáculos Políticos

 

 

O homem domina a arena política; o homem formula as regras do jogo político; o homem define o padrão de evolução. A existência deste modelo de predominância masculina, a mulher rejeita a política ou rejeita o modelo de política masculino.

À medida que nos aproximamos do final do século XX, cerca de 95 por cento dos países de todo mundo garantiram às mulheres dois direitos democráticos fundamentais: o direito de voto e o direito de se candidatarem a lugares governamentais. A Nova Zelândia foi o primeiro país a dar direito de voto às mulheres, em 1893; e a Finlândia foi o primeiro a adoptar estes dois direitos democráticos, em 1906. Há ainda alguns países que nega às mulheres ambos direitos, de voto e de candidatura (Kuwait, Emiratos Árabes Unidos).

Teoricamente, o direito de candidatura, de se candidatar e de ser eleita, está inerente ao direito de voto. A realidade, no entanto, mostra-nos que a mulher continua condicionada, principalmente porque os candidatos são homens.

Isto é uma realidade, não só para democracias parciais ou em desenvolvimento, mas também para democracias estabelecidas. O baixo nível de representação feminina em alguns países europeus(2) deve ser considerada como uma violação dos direitos democráticos fundamentais e, como tal, dos direitos humanos. Esta desequilibrada taxa de representação nos corpos dirigentes significa que a representação feminina, mais do que ser uma disfunção de democratização, é uma forma de preservar o estatuto masculino.

Na maior parte dos países as dificuldades existem, quer por virtude das leis não serem seguidas ou por nem sequer existirem leis. A lei argentina das cotas, por exemplo, requer que todos os partidos nomeiem pelo menos 30 por cento de mulheres para posições eleitorais ou para candidatas das suas listas. Sem esta lei o número de mulheres no parlamento não iria aumentar, não se poderia esperar que os partidos tomassem a iniciativa por si próprios. Outro caso a considerar são as eleições na Irlanda em 1997.

Pesquisas indicam que as estruturas políticas, mais do que os factores sociais, desempenham um papel importante para o recrutamento das mulheres no parlamento. O sistema de eleição baseado na representatividade proporcional, por exemplo, tem eleito três ou quatro vezes mais mulheres em países com políticas culturais semelhantes (exemplos: Alemanha e Autrália).

 Ver tabela 1: As mulheres no Parlamento

         Generalizações como estas validam até agora as semelhanças culturais, o mesmo nível de desenvolvimento social e económico entre os países. Na Rússia, por exemplo, esta generalização é inaplicável pela falta de cultura política, nomeadamente de grande número de partidos ou blocos, as suas estruturas subdesenvolvidas, a falta de autoconfiança que muitas mulheres enfrentam e a ignorância dos interesses das mulheres por parte dos partidos políticos. Uma política de voto positivista, a capacidade para fazer escolhas e tomar decisões coerentes quando se exerce o direito de voto, que não é apenas dependente do grau de instrução, desempenham um papel significante, tal como irá melhorar a situação.

Entre os obstáculos políticos que a mulher enfrenta, os pontos seguintes são proeminentes:

·        A preponderância de um “modelo masculino” de política;

·        A falta de apoio partidário, tal como o limitado apoio financeiro para candidatura femininas; acesso limitado a federações políticas;

·        A falta de contacto e cooperação com outras organizações, tais como sindicatos e associações femininas;

·        A inexistência de educação e treino para desenvolvimento das competências femininas de liderança em geral, e a orientação de jovens mulheres para uma futura vida política em particular;

·        A natureza do sistema eleitoral, que pode ou não ser favorável às candidatas.

 

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Modelo Masculino da Política

 

 

O homem domina a arena política; o homem formula as regras do jogo político; o homem define o padrão de evolução. Para além disto, a vida política está organizada de acordo com as normas e valores masculinos e, em alguns casos, com o estilo de vida masculino. Por exemplo, o modelo político é baseado na ideia de “perder ou ganhar”, competição e confronto, mais do que no respeito mútuo, colaboração e consenso. (3) Este ambiente é estranho para a mulher, tanto à sua natureza como às suas experiências. A existência desta predominância do modelo masculino leva as mulheres a rejeitarem a política. Mesmo quando a mulher participa na política, tem tendência a fazê-lo em número reduzido.

"The most interesting aspect of the Swedish Parliament is not that we have 45 per cent representation of women, but that a majority of women and men bring relevant social experience to the business of parliament. This is what makes the difference. Men bring with them experience of real life issues, of raising children, of running a home. They have broad perspectives and greater understanding. And women are allowed to be what we are, and to act according to our own unique personality. Neither men nor women have to conform to a traditional role. Women do not have to behave like men to have power; men do not have to behave like women to be allowed to care for their children. When this pattern becomes the norm then we will see real change."

Birgitta Dahl, Discurso no Parlamento, Suécia

 As diferenças entre o homem e a mulher também é visível no que respeita aos conteúdos e às prioridades das decisões políticas, que são determinadas por interesses, backgrounds e dominância no mundo laboral. As mulheres tendem a dar prioridade às preocupações sociais, tais como segurança social, saúde nacional e problemas infantis.

A dominância masculina no mundo do trabalho é reflectida na agenda parlamentar, que é geralmente caracterizada pela ausência de estruturas de suporte para mães trabalhadoras em geral, e para as mulheres deputadas em particular. Além disso, têm de cumprir o seu papel de mães, esposas, irmãs e avós. Neste momento, a agenda parlamentar não está preparada para ter em consideração estes vários encargos que a mulher carrega. Muitas deputadas lutam para equilibrar a vida familiar com as exigências do trabalho que geralmente envolve horas tardias, viajar e poucas facilidades.

 

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Falta de Apoio Partidário

 

 

As mulheres desempenham um papel importante na mobilização e campanha do seu partido, no entanto raramente ocupam lugares de chefia nestas estruturas. De facto, menos de 11 por cento dos líderes partidários mundiais são mulheres.

No entanto, os partidos possuem recursos para conduzir campanha eleitorais e as mulheres não beneficiam desses recursos. Por exemplo, os partidos não fornecem apoio financeiro suficiente para mulheres candidatas.

A selecção e a nomeação dos partidos políticos é baseado contra as mulheres, nas quais as “características masculinas” são enfatizadas e geralmente tornam-se um critério de selecção dos candidatos. Uma atmosfera de “old boys club” e a inibição de selecção de mulheres inclina-se a não integrar nos partidos políticos. Isto resulta na insuficiente percentagem de mulheres na política, provocada pelos que asseguram dinheiro para as campanhas políticas, sem serem sequer escolhidas para se candidatarem. De facto, as mulheres são geralmente postas na lista candidata de forma a não serem escolhidas pela insuficiência de votos do seu partido. Este método é usado como um isco para o eleitorado. A participação feminina é mais representativa quando são estabelecidas cotas para tal. Na Suécia por exemplo, a cota de 40.6% para as mulheres resultou numa ocupação efectiva de 40.4% dos lugares do parlamento.

Ver Tabela 2: Mulheres Presidentes ou com Voz Activa no Parlamento

"It is very difficult for a woman to make up her mind to enter politics. Once she makes up her own mind, then she has to prepare her husband, and her children, and her family. Once she has overcome all these obstacles and applies for the ticket, then the male aspirants against whom she is applying make up all sorts of stories about her. And after all this, when her name goes to the party bosses, they do not select her name because they fear losing that seat."

Sushma Swaraj, deputada da Índia

 

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Organizações Femininas

 

 

Durante as últimas décadas a representação feminina no parlamento nas “velhas” democracias tem aumentado. Uma das razões críticas para este aumento é o impacto das organizações femininas dentro e fora dos partidos políticos. As organizações estavam alerta para o efeito das eleições pluralistas nas candidaturas femininas. Trabalham com instituições políticas e governamentais para assegurar mudanças eleitorais, para facilitar a nomeação e eleição das mulheres. Esta estratégia resultou num aumenta da representação feminina e da mudança da legislação.

"As women parliamentarians, we need to share our experiences. This in itself will inspire women. We will not feel that we are alone in this game, and other women will not feel isolated from the process. At every opportunity, at every forum, each and every time we must share information, ideas, knowledge. We must make sure that women are the most informed people within society."

Margaret Dongo, deputada do Zimbabwe

No entanto, nas democracias parciais ou mais recentes há um contacto de uma cooperação limitada entre as mulheres ligadas à política e as organizações femininas. Além disso, os movimentos e os grupos femininos, nestas partes do mundo, ou tendem a manter distância das deputadas ou investem em canais de comunicação organizados e no lobbying, em assuntos relacionados com a promoção das mulheres em lugares de decisão. Neste casos ou se consegue uma aproximação dos potenciais beneficiados destas redes funcionais, ou existe ausência de recursos para investir em tais contactos.

O governo pode ainda declarar o seu compromisso com mudanças de formas democráticas, é, mesmo assim, irreal esperar-se que o governo assegure por si próprio os direitos das mulheres em todas as esferas da sociedade. A sociedade civil em geral, incluindo as organizações não governamentais e os grupos femininos, têm de desempenhar um papel no desenvolvimento da representatividade feminina. Para atingir a igualdade na vida política é necessário garantir que o compromisso com a equatitividade esteja presente na legislação e na política nacional. As iniciativas positivas são uma ferramenta importante para manter, pelo menos, 30 por cento de mulheres no nível decisório.

As mulheres têm de reflectir sobre os seus objectivos, estratégias e tácticas. Da mesma forma, é importante apoiar as mulheres que já se encontram presentes no parlamento para que estas possam cumprir as suas promessas e para as dotar das ferramentas e as estratégias necessárias para assegurar os interesses da mulher e para estes serem postos em debate e discussão no parlamento. Para motivar a participação feminina na política é necessário estender o grau de envolvimento aos meios rurais e aos movimentos femininos entre os corpos dirigentes locais. Isto constitui igualmente um importante passo em frente para a construção da confiança e uma facilidade para a troca de experiências.

 

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Educação e Instrução

 

 

 "It’s very difficult for women to talk, to argue, to press for their concerns. How can we encourage women to talk and to express themselves? Maybe the woman in the hut has a lot to say, but we have to encourage her to talk – not about politics, but about her problems, her life, issues that concern her. The answer is education. Education has led many women in my society to join political parties or participate in political activities. Education is the most important channel for encouraging women to speak out."

Rawya Shawa, deputada da Palestina

Expandir os interesses das mulheres que são qualificadas para o recrutamento na carreira política é também necessário. Isto pode ser conseguido dando às mulheres acesso , desde uma idade precoce, a trabalho que conduza à liderança política, tal como instrução especial baseada em noções de cidadania ou organizações envolventes. A compreensão das preocupações das mulheres, anti segregação baseada no sexo, qualidades políticas e trabalho de equipa são importantes para o processo de formação para a carreira política da mulher. Para esse fim, a liderança feminina escolar desempenha um papel importante, uma vez que se trata de um local privilegiado para se estabelecerem contactos com grupos femininos e mulheres que se ocupam da política; e, muito regularmente, são os locais onde as mulheres são preparadas e encorajadas para uma carreira política. Uma atenção especial deve ser dada ao envolvimento das jovens na participação política.

 

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O Sistema Eleitoral

 

 

O tipo de sistema eleitoral que o país adopta tem papel importante na representação política das mulheres, principalmente no mundo em desenvolvimento. A generalidade argumenta que os sistemas de representação proporcional são mais adequados que os sistemas maioritários para o aumento da representação feminina.

 

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Obstáculos Socio-Económicos

 

 

A crise económica nos países com as chamadas “democracias em desenvolvimento” intensifica o risco da pobreza feminina, que tal como o desemprego tem tendência a afectar mais directamente a camada feminina.

As condições socio económicas têm também uma certa importância no recrutamento de mulheres para a política, tanto nas democracias estabelecidas como nas em desenvolvimento. O estatuto social e económico da mulher na sociedade tem uma influência directa na sua participação nas instituições políticas. Por exemplo, os pesquisadores apontam para uma correlação entre a formação de legislação feminina e a proporção de mulheres que trabalham fora de casa, tal como com a percentagem de mulheres licenciadas ou com uma educação de nível superior. As condições socio-económicas ocupam o segundo lugar na representatividade feminina na política.

Os obstáculos socio-económicos que interferem na participação feminina no parlamento podem ser classificadas como as seguintes:

·              Pobreza e desemprego;

·              Falta de recursos adequados de financiamento;

·              Analfabetismo e acesso limitado à educação e à escolha profissional;

·              A ocupação dupla das tarefas domésticas e das obrogações profissionais.

"The two most overwhelming obstacles for women in entering parliament are lack of constituents and lack of financial resources. Women move from their father’s home to their husband’s home to their in-laws home. They are like refugees. They have no base from which to develop contacts with the people or to build knowledge and experience about the issues. Furthermore, they have no money of their own; the money belongs to their fathers, their husbands or their in-laws. Given the rising cost of running an effective campaign, this poses another serious hurdle for women in the developing world."

Razia Faiz, professora e deputada, Bangladesh

 

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Pobreza e Desemprego

 

 

As mulheres asseguram 31 por cento da força de trabalho industrial nos países desenvolvidos e 46.7 por cento da economia global. Muito do lucro industrial conseguido por mulheres, desde os anos 60, está agora em riscos de erosão, que parece ser o resultado da restruturação económica doméstica e global. Há uma evidente regressão na força de trabalho feminina: pela primeira vez em mais de 25 anos, os anos 90 desceram as percentagens de participação feminina na vida laboral activa. Isto deve-se ao facto de as mulheres serem pagas menos 10 a 30 por cento que os homens em tarefas semelhantes. Torna-se menos rentável exercer uma actividade no mundo laboral do que se ocupar somente das tarefas domésticas.

As mulheres são grandes impulsionadoras da economia nacional, tanto com o trabalho pago como com o gratuito. Dentro do trabalho não remunerado, as mulheres do meio rural são um eleitorado que não deve ser subestimado. No entanto, a importância biológica e social da mulher e a sua interferência em todas as esferas da vida não é muitas vezes reconhecida. Diminuir a pobreza irá ter um impacto positivo na participação feminina no processo democrático. O poder económico, juntamente com a educação e o acesso à informação irão restringir os limites das donas de casa para uma participação na política e nas eleições.

 

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Vida Dupla

 

 

Na maior parte dos países a mulher carrega uma desproporção da divisão dos trabalhos domésticos. A participação feminina na política é mais restringida pela pobreza, falta de instrução e ao acesso à informação. Tem de ser reconhecida a dificuldade das mulheres em participar na vida política, quando as suas principais preocupações se prendem com a sobrevivência e não têm outra escolha senão despender grande parte do seu tempo a satisfazer as necessidades básicas da família. Além disso, algumas mulheres têm um emprego a tempo inteiro como esposas e mães que tem de ser coordenado com uma carreira a tempo inteiro (por exemplo, professoras, advogadas ou médicas). Ser deputada do parlamento, nestas condições, pode ser considerado um terceiro emprego a tempo inteiro.

"Women believe that entering parliament means choosing between a private life or a public life. This is not the case. Instead, women should view their life as a continuum. They should decide what they want to achieve in life and prioritize these goals in chronological order. There is a certain right time to achieve each of these goals, whether it is becoming a wife, mother, professional or a parliamentarian. Life is long and women can achieve many things."

Anna Balletbo, deputada Espanhola

 

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Obstáculos Psico-Ideológicos

 

 

Quando uma mulher entra na política ela não deixa de ser mulher. È quando a feminilidade deve ter prioridade, uma vez que tem um potencial criativo e uma força intelectual específica.

Os obstáculos psicológicos e ideológicos que as mulheres enfrentam para entrarem no parlamento incluem o seguinte:

·        Padrões ideológicos e culturais baseados no sexo, assim como papeis pré determinados destinados ao homem e à mulher;

·        A falta de confiança feminina para impor as suas ideias;

·        A percepção da mulher de que a política é um “jogo sujo”;

·        A forma como as mulheres são retractadas nos mass media.

 

"Women have tried to enter politics trying to look like men. This will not work. We have to bring our differences, our emotions, our way of seeing things, even our tears to the process."

Anna Tibaijuka, Professora, Tanzânia

 

Em muitos países, a tradição continua a enfatizar, e muitas vezes a ditar, o papel das mulheres como mães e donas de casa. Um forte sistema de valores patriarcal e que favorece a segregação por sexo, geralmente denominado de “tradição de valores culturais”, milita contra o avanço, progresso e participação da mulher em qualquer processo político. As sociedades por todo o mundo são denominadas pela ideologia do “lugar da mulher”. De acordo com esta percepção, a mulher devia apenas desempenhar o papel de “mãe trabalhadora”, que é geralmente mal pago e apolítico. Para mais, em algumas sociedades, o homem ainda diz à mulher em quem votar.

Este é o ambiente que muitas mulheres enfrentam como imagem colectiva  de uma mulher tradicional, onde os interesses políticos não dominam. A imagem de uma mulher líder requer que ela seja assexual  no seu discurso e nas suas maneiras, alguém que não seja caracterizado como mulher e sem características do seu sexo. Geralmente é suposto ser inaceitável, ou até vergonhoso na consciência colectiva, para a mulher ser aberta em relação à sua natureza feminina. De facto, quanto mais fiável e corajosa uma mulher é, mais corresponde às regras indeclaradas do “jogo masculino”. È por isso que as mulheres na política em geral, e as deputadas em particular, têm de ultrapassar esta dificuldade para se sentirem confortáveis no campo político, como se pensassem estar num local ao qual não pertencem, comportando-se de forma artificial para elas.

Muitas vezes as mulheres interiorizam estas ideias e acabam por se sentirem culpadas por não corresponderem a esta imagem quase impossível. Este sentimento de culpa é extremamente maléfico para a sua própria feminilidade ou fazendo sentir que precisa de trair essa qualidade feminina, quando a mulher deveria ter orgulho dela. Até se reconciliarem (ou entrarem em acordo) com certas imagens colectivas, os estereótipos dominantes e com a sua natureza feminina, a sua vida será difícil e complicará que estas satisfaçam as expectativas do eleitorado. A mulher deve ser preparada para o facto de quando se tornar política, ela não deixa de ser mulher. É a sua feminilidade que deve ter prioridade, uma vez que oferece uma potencial criatividade diferente e uma força intelectual. A habilidade para tomar decisões e as implementar não é sexualmente distinta, mas comum ao ser humano; noutras palavras, um homem no poder é natural, uma mulher no poder é também natural, ou pelo menos deveria ser.

"Women don’t have the right to cry; it’s only the privilege of men. A male MP, even a minister, can cry. It’s normal. It’s not being emotional, it’s being intelligent. But women don’t have the right to be weak, to cry, to show our emotions – because we live in a time when to be in politics, we have to behave more like a man."

Rawya Shawa, deputada na Palestina

 

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Falta de Confiança

 

 

A falta de confiança em si próprias é uma das principais razões para a subrepresentação feminina em instituições políticas, incluindo parlamentos, governo e partidos políticos. Com confiança e determinação as mulheres poderão atingir o nível superior do processo político. É por isso que as mulheres têm de acreditar em si próprias e têm de deixar a percepção que os homens têm de ser seus líderes. As mulheres são “iguais” e têm o mesmo potencial que os homens, mas só elas podem lutar pelos seus direitos. As mulheres são boas militantes, organizadas e mobilizadoras, mas raramente reclamam postos parlamentares. Uma certa cultura melindrosa de contestar eleições e participar na vida política.

 "Once we’re in parliament, we should not give the impression that we are very special, gifted women, especially created by God to serve as special preachers. No, we should tell other women that you are just like us, and you can also reach parliament, with some struggle, with some education, with some talent."

Sushma Swaraj, deputada da Índia

 

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A percepção "Suja" da Política

 

 

Em alguns países, a mulher compreende a política como um “jogo sujo”. Isto intimada a habilidade das mulheres no seu confronto com o processo política. De facto, tal percepção é universal. Infelizmente, esta percepção reflecte a realidade de muitos países e, para além  das razões desta diferença, há algumas tendências comuns.(4)

As bases da corrupção passiva pode ser explicada pela troca entre vantagens e benefícios do mercado público (por exemplo legislação e aprovação de orçamentos) e do mercado económico (por exemplo fundos, votos, empregos), o que traz ganhos financeiros fugindo a concursos públicos e a condições manipuladoras. Para além disso, um aumento significativo no custo das campanhas eleitorais tornou-se evidente, o que aumenta a tentação de usar qualquer recurso disponível que possa ser aplicado a esta prática.

No entanto,  a corrupção pode não ser uma prática constante em todos os países, tendo havido um impacto resultante da atitude das mulheres que seguiram uma carreira política. Não parece ser coincidência que os países com menos corrupção têm uma percentagem mais alta de mulheres nos lugares chave políticos. De acordo o relatório da International Transparency de 1997, países como a Nigéria, Paquistão, Quénia, Bangladesh e outros têm tendência a serem mais corruptos. A representatividade parlamentar feminina nestes países é muito baixa, apenas três a sete por cento dos deputados são mulheres. Pelo contrário, a Noruega, Finlândia, Suécia, Dinamarca e a Nova Zelândia são reconhecidos como os menos corruptos e, neste países, as mulheres constituem entre 30 a 40.4 por cento dos parlamentares; noutras palavras, cinco a dez vezes mais.

As mulheres que decidiram avançar para a vida política têm de ter em conta todas estas circunstâncias e estar preparadas para resistir à “doença” da corrupção. Uma vez que a corrupção requer sigilo, e a democracia pressupõe abertura, pluralismo e liberdade de imprensa, a liberalização política deverá diminuir a corrupção. A democracia, assegurando uma participação dos cidadãos e estabelecendo um poder eficiente, poderá contribuir para diminuir a corrupção.

Simultaneamente, as forças do mercado não podem substituir o papel da lei. Um mercado económico tem de ser apoiado pela legislação, de forma a diminuir a corrupção. As mulheres podem contribuir determinantemente nesta área.

 

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O Papel dos Media

 

 

Os mass media merecem a denominação do quarto poder pela sua influência na opinião pública e na consciência social. Os media, em qualquer sociedade tem dois papeis: informar a opinião pública e debater diferentes pontos de vista. Geralmente, os mass media têm tendência a minimizar ou ignorar os movimentos e as organizações femininas. Os media, incluindo publicações femininas, não informa devidamente sobre os interesses e os desempenhos da mulher na sociedade, nem publica as medidas do governo que melhoram a posição da mulher. A maior parte dos media têm ainda de lidar com o facto de que as mulheres são as primeiras vítimas das mudanças económicas e das reformas levadas a cabo no país (por exemplo, são as primeiras a perder o emprego). O facto de que as mulheres estão mais alienadas dos processos de decisão do governo é também ignorado pelos media.(5)

Os meios de comunicação social podem ser usados para cultivar a segregação sexual e para promover o estereótipo do “lugar da mulher”, ajudando partidos conservadores e a culpar a mulher pelo fracasso da política da família e para reforçar a ideia de que as mulheres são responsáveis pela deterioração da sociedade, tais como o divórcio e o aumento de crimes menores. Outro estereótipo emitido pelos media é de que as mulheres são “bonitos objectos”. Neste caso a mulher é identificada e catalogada de acordo com o se sexo e é levado a cabo para interiorizar noções de beleza e sensualidade que está mais relacionado com a sua aparência exterior do que com as suas faculdades intelectuais.

Tais aproximações encorajam o estereótipo patriarcal de que a mulher é o “sexo fraco” e que são “objectos sexuais” e cidadãos de “segunda classe”.

Há que admitir que os mass media também contam histórias de mulheres na política e de mulheres de negócios que encontraram o sucesso, mas este tipo de cobertura é rara e infrequente. É mais típico a apresentação de assuntos como concursos de moda, estrelas de cinema, arte e os segredos da eterna juventude. Não surpreendentemente, estes programas não mostram o esforço e o respeito das mulheres, nem as encorajam a tomar posições na responsabilidade pública.

O papel dos meios de comunicação social no processo electivo não pode ser demasiado enfatizado. Se há uma falta de cobertura nos interesses das mulheres e nas actividades da mulheres deputadas, isto resulta da falta de debate público que poderia provocar interesses na sociedade. Isto traduz-se na falta de consciência para o trabalho das mulheres na política. Os mass media ainda têm de reconhecer a igualdade de valores e dignidade dos homens e das mulheres.

A missão principal dos movimentos femininos é inculcar o tipo certo de confiança e crença entre as mulheres e cultivar uma certa cooperação entre elas. Nada vem por si só. O trabalho da mulher é construir uma sociedade civilizada de acordo com o paradigma que reflecte os seus valores, forças e aspirações, reforçando a sua habilidade para atrair e participar no processo político.

 

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Conclusão

 

 

"To succeed, women parliamentarians must possess two qualities: good health, and an unwavering commitment to achieve our goals. We need to be sure of our objectives, and be single-minded in our determination to reach these goals. If we hesitate, we lose."

Anna Balletbo, deputada Espanhola

 Vários factores podem complicar a entrada das mulheres na política, tal como temos vindo a constatar ao longo deste trabalho, incluindo:

·        O fraco acesso das mulheres e a integração nas instituições políticas;

·        A masculinidade de muitas das instituições, de acordo com ideias masculinos e atitudes políticas;

·        A falta de apoio partidário, incluindo financiamento e outro apoio para lançar as campanhas das mulheres e a sua política, credibilidade económica e social;

·        A falta da atenção mediática na contribuição feminina e no seu potencial, o que também resulta na ausência de consciência social;

·        A pouca coordenação e cooperação entre as organizações femininas e outras ONG com as instituições políticas;

·        A baixa auto-estima e auto-confiança femininas, apoiada em certos padrões culturais que não facilitam o acesso feminino a uma carreira política;

·        O tipo de sistema eleitoral, bem como falta de estabelecimento de cotas.

 

Existem vários obstáculos, dependendo da situação em cada país. Nas democracias estabelecidas, por exemplo, um dos obstáculos pode-se prender com uma determinada percentagem que os partidos têm de ter. Nas democracias em desenvolvimento, pode ser o acesso aos mass media ou o acesso a fontes para conduzir uma campanha eleitoral. Nos sistemas militares e autoritários, pode ser o difícil acesso à elite política. Como podemos constatar, em todos os países deveria haver uma reforma do sistema eleitoral para que as mulheres tivessem o direito efectivo de serem eleitas.

Excluindo as mulheres das posições de poder e dos corpos eleitos está-se a cometer uma grave infracção nos princípios democráticos, na vida pública e inibindo o desenvolvimento económico da sociedade. A maioria das instituições governamentais são dominadas por homens, que preservam os seus próprios interesses. As instituições governamentais ou políticas dominadas por homens não promove as mulheres ou os seus interesses. É imperativo enfatizar que as próprias mulheres têm de organizar e mobilizar os seus projectos, aprender a comunicar os seus interesses a diferentes organizações e arranjar mecanismos para ultrapassar os obstáculos que se interpõe na representatividade feminina na política.

 

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Notas bibliográficas

 
 

(1) - Os padrões de comportamento típicos das grandes civilizações do passado para com as mulheres são significativos: a China mutilava-as, a Índia queimava-as, o cristianismo mortificava-as e os islamismo encarcerava-as! Padrões extremos, certamente, mas reveladores da mentalidade tradicional a seu respeito.

(2) - 13,8 por cento (nos parlamentos) e 8,5 por cento (nos senados), ambos combinadas dá um total de 10,9 por cento.

(3) - Dahlerup, Drude. 1991. “From a Small to a Large Minority: A Theory of a Critical Mass Applied to the Case of Women in Scandinavian Politics”. In Hem Lata Swarup and Sarojini Bisaria. eds. Women, Politics and Religion. Etawah, India: A.C.Brothers. pp. 267-303; Janet C. Beilstein. 1996. "Women in Decision-Making: Progress towards a Critical Mass". Paper for SADC regional Parliamentary Seminar in cooperation with UNDP. Cape Town, South Africa. September. pp. 1-4.

(4) - Transparency International. Abril 1997. "The Fight Against Corruption: is the Tide Now Turning?", Transparency International Report. Berlim: TI.

(5) - Shvedova, N. 1994. "A Woman’s Place: How the Media Works Against Women in Russia", in Surviving Together, Vol. 12, No. 2.

 

Bibliografia

 

 

Dahlerup, Drude. 1991. "From a Small to a Large Minority:
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