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Fundamentalismo
Fundament. Religioso

 

 

Fundamentalismo Religioso©

Patrícia Nogueira da Silva

Escola Superior de Jornalismo do Porto

Abril de 2000

 

 

Identidades

Hinduísmo

Budismo

Confucianismo

Judaismo

Islamismo

Cristianismo

 

Identidades

 

 

O fundamentalismo surgiu no processo de unificação das religiões. Este processos é formado pelas sedimentação de religiões e cultos mais reduzidos, locais ou regionais, incapazes de responder à novidade. Tem importância esta origem complexa e diversificada já que as lutas para manter os fundamentos ou readequá-los vivendo de uma forma nova, segundo as necessidades do presente. No entanto, é importante lembrar que as religiões têm de assegurar os seus fundamentos, tendo em conta o passado e as raízes. Embora possa ser ocultada durante algum tempo, esta situação desencadeará, sempre com novas formas, problemas históricos irresolutos e irresolúveis.

 O fundamentalismo aparece quando a fracção hegemónica da religião, tentando fundir-se com o poder da classe estabelecida, define o dogma. É condição prévia que a elaboração dos fundamentos leva a que uma fracção assuma a hegemonia sobre as restantes. De forma geral, atingem-no unindo-se  aos sectores mais poderosos do governo e às classes dominantes. Uma vez assegurada a condição de privilégio e poder, essa fracção dita o dogma. O tempo que leva a fazê-lo, as dificuldades que enfrenta etc, depende do contexto político-religioso, mas esse passo está dado. Se, por diversas razões, o salto qualitativo não se verificar, a religião entraria numa decomposição sectária.

 O fundamentalismo não assegura o êxito absoluto. Terá que passar por uma série de exames práticos sempre vinculados à violência, força do poder e do medo. Tem que ultrapassar tudo isto por duas razões: uma porque há sempre sectores dissidentes ou progressistas que não aceitam as ideologias de direita, ou então sectores que se aliam a outros poderes e classes. Outra porque, apesar destes obstáculos, coexistem as diferentes origens religiosas, classistas e etno-sociais, que confluíram na religião e que tiveram de ceder  no processo da fundamentação dogmática. Desta forma, quando se acentua o descontentamento social, emergem ao exterior.

 O fundamentalismo, superada a crise de infância, não encontra a paz perpétua. Pode mantê-la durante um certo tempo mediante as circunstâncias, mas depressa reaparecerá sob novas formas, nos momentos mais críticos socialmente. Cada religião tem a sua forma de sair de crise. Algumas, como o cristianismo, cria novos ramos que muito se distanciam do tronco inicial, sendo muito mais rentável junto das novas classes dominantes, como são os casos do anglicanismo e do protestantismo.

 Por último, o fundamentalismo possui uma identidade de género e uma supremacia linguístico-cultural. A primeira é determinante, dizendo-o com redundância, fundamental. O patriacado tem sido sempre uma das estâncias centrais na dogmatização religiosa. À margem das suas formas de expressão em cada dogma religioso, o patriacado tem sabido e podido manter o seu poder e incrementá-lo abandonando velhas religiões e aceitando outras novas. Tem podido e pode conceder alguns direitos às mulheres, mas sempre relativos ao contexto social e à dinâmica objectiva e subjectiva da exploração. Também a supremacia linguístico-cultural tem-se unido aos processos de fundamentação. Quando se tem dado o marco da uninacional, tem beneficiado claramente a cultura da classe dominante. Quando se deu o marco plurinacional tem beneficiado uma nação sobre as restantes. As religiões proféticas têm sido mais opressoras nacionalmente que as sapienciais, mas também estas tiveram e têm as suas responsabilidades, muitas vezes brutais.

 

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Hinduísmo

 

 

As tribos aborígenes dos vales Hindus foram resistindo às invasões. No entanto, depois de derrotadas e das suas terras ocupadas, mantiveram a sua religião e características culturais. De tal modo que, durante os séculos XV – X a.C., os invasores eram inferiores culturalmente, mesmo detendo o poder militar.

Toda a força do hinduísmo deve-se a um longo processo de invasão, exploração e opressão.

A partir do século IV a.C. teve de sofrer um processo de reforma dos seus dogmas para resistir às novas religiões, principalmente o budismo. Foi obrigado a popularizar-se e a falar aos seus crentes de novas realidades sociais.

Mais tarde, o ocidente trouxe novas exigências de adaptação dos seus fundamentos, tentando sempre impor-se politico-religiosamente, favorecendo as castas dominantes.

 

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Budismo

 
 

Esta religião surgiu como resposta crítica ao hinduísmo no século VI a.C. de forma embrionária, mas só tomou consistência teológica no século III a.C.

Na realidade, o budismo surgiu como alternativa ao hinduísmo  de sectores sociais ricos e bem estabelecidos. No século III a.C. mudou o contexto socio-político, económico e militar, formando um poder imperial que teve necessidade de uma centralização religiosa, mais adequada que o hinduísmo.

A integração do budismo na lógica do poder tem sido uma luta claramente fundamentalista: o núcleo ortodoxo recolhido nos mosteiros insistia em manter os dogmas, enquanto a maioria pretendia suavizá-los, tornando-o mais compreensível e aberto a outras classes sociais e culturas religiosas. O primeiro núcleo denominou-se “hinayana” ( o caminho estreito) e o segundo “mahayana” (o caminho amplo). A luta foi dura entre as duas correntes.

A maioria tinha a força da tradição e o poder económico; a maioria contava com o seu poder de atracção. A solucção surgiu, não do debate teológico, mas dos interesses de poder. A corrente “renovadora” impôs-se à “fundamentalista” porque o rei Kanishka compreendeu que os “modernistas” teriam mais implantação de massas. Este rei controlou o decisivo concílio de Caxemira  que deu a vitória à corrente “mahayana”.

 

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Confucianismo

 
 

A evolução religiosa chinesa é o melhor reflexo da essencial e directa conexão do fundamentalismo com o poder. K’ong fu tseu, Confúcio, compilou as correntes conservadoras que procuravam pôr ordem no caos da China no século V a.C. Sintetizou uma enorme massa de ritos criando um único, que fundiu com o culto dos seus antepassados familiares e com o poder estatal. No entanto, as pressões religiosas e sociais obrigaram os confucianos  a um debate fundamentalista; o “renovador” Meng tseu suavizou os rituais e ampliou as bases.

Tanto esta como outras religiões foram instrumentos do império, variando a sua utilização segundo as necessidades e contradições sociais. O confucionismo  centrava-se em redor do poder imperial e este era o seu fundamento e razão de existência.

 

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Judaísmo

 
 

O monoteísmo foi uma construção do poder hebreu que começou com uma centralização monoteísta do rei Josías em 621 a.C. Tratava-se da terceira etapa do judaísmo. A primeira decorreu em 1500 a.C. quando as tribos eram nómadas no norte da Arábia.

A segunda etapa começou com a sedentarização e a conquista da Palestina. Durante  a guerra manteve-se a antiga religião, mas com as riquezas da conquista surgiram as classes sociais, a pobreza acentuou-se e as novas classes ricas aceitaram ritos e costumes. No século VIII a.C. apareceram os chamados “profetas” que não eram sacerdotes, mas sim membros do povo denunciavam a corrupção e a tradição religiosa, ao mesmo tempo que reivindicavam a restruturação dos fundamentos religiosos históricos.

Na terceira fase começou a ser patente a debilidade judia face os Estados circundantes, muito superiores. É no século V a.C. que se vão escrever os primeiros livros da Bíblia que seria depois adaptada ao cristianismo e ao islamismo. Foram construídas as muralhas de Jerusalém e proibidos os casamentos entre judeus e estrangeiros.

Começou então a quarta fase com um controlo apertado do poder interno politico-religioso pela classe dominante, que aceitava os sucessivos invasores estrangeiros, caindo em desânimo e aumentando a emigração. O poder politico-religioso ajudava a reprimir as revoltas e as lutas de liberação nacional. Em todas as classes dominantes judias optaram pelos invasores e utilizaram a religião oficial como força mobilizadora. No século I a.C. venceu Roma.

 

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Islamismo  
 

Mahomé  elaborou o seu credo religioso em duas grandes fases: a primeira foi em Meca e a segunda e definitiva em Medina. A primeira ofereceu um credo aberto e dialogante e a segunda, pelo contrário, fechada e violenta. Esta contradição manifesta-se no Corão e tem a sua origem nas diferenças socio económicas. Integra quatro religiões anteriores: politeísmo tribal árabe, judaísmo, zoroastrismo e cristianismo. Mahomé não deixou nada escrito pela sua mão e há até indícios para pensar que era analfabeto.

O Corão não tem estrutura lógica nem ordem cronológica. Os seus apelos à igualdade social e à caridade são poucos e abstractos. É interpretado de várias formas, quase todas legitimadas pelo poder estabelecido, sobretudo o patriacado , elevando a sua virilidade ao máximo e santificando a poligamia masculina.

O Islão nasceu envolto em sangue. Mahomé era vingativo e cruel, vivendo-se desde o princípio uma guerra contra as tribos para resistir o islamismo.

 

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Cristianismo  
 

Em primeiro lugar é importante salientar que não é a existência de Jesus Cristo que pretendemos debater aqui, muito menos a credibilidade histórica que se deve dar aos “textos sagrados” do cristianismo. Nenhuma religião se sustenta sobre tamanho cúmulo de mentiras, falsificações e mitos como o faz o cristianismo. Foi um sector hebreu que tomou força sobretudo na Ásia Menor e no Egipto.

O cristianismo teve um largo período de formação, pois começa na segunda metade do século I e acaba no século V com o triunfo do dogma cristão. O primeiro texto data do ano 68 e anuncia o Apocalipse. Retracta o eminente fim do mundo, a chegada do salvador e a instauração do reino na Terra. É um documento de ódio e vingança, mas também de espera e inactividade. Para o final do século II redigem-se os evangelhos, muito contraditórios entre si e constata-se  a entrada crescente de pessoas ricas, de classes dominantes, cultas e formadas na filosofia platónica.

Quatro processos, unidos à fundamentação dogmática do cristianismo, marcam esta etapa: abandono da eminência escatológica , do messianismo justiceiro e verifica-se uma integração acelerada na ordem política estabelecida; impressionante sectorização dos cristãos apesar do esforço unificador; vitórias das correntes anti hebraicas e aparição do mito de Judas como traidor de Jesus.

A terceira e definitiva etapa vai do início do século III até ao século IV, como fase de ascensão na escada do poder. É agora que o cristianismo adquire o seu fundamento dogmático e a sua definitiva ligação com o poder estabelecido.

No século III assiste-se a um aumento incontrolável do misticismo, correntes orientais, esotéricas, neopitagóricas e neoplatónicas. O cristianismo estava em melhores condições, face às outras religiões, para aceitar e integrar estas modas dado o seu estado embrionário, muito difuso e impreciso.

Para os inícios do século IV, o cristianismo era uma força influente ainda que não de massas. Era uma força com maior crédito nos poderes estatais que sociais, especialmente dentro do exército.

O fundamentalismo cristão construiu-se  mediante uma dupla guerra de extermínio: no exterior contra o saber pagão e no interior contra as correntes cristãs que não aceitavam as teses provenientes da aliança da Igreja de Roma com o Império Romano. A violência e a morte foram mais decisivas em ambas do que o debate e a razão. Este fundamentalismo só foi admitido como tal depois de receber apoio da classe estabelecida.

A história posterior do catolicismo, culto ortodoxo, anglicanismo e protestantismo etc, só se compreende enquanto componente interna das divergências entre poderes de classe existentes nos seus momentos. Não faz falta estendermo-nos sobre a impressionante lista de papas, patriarcas, bispos anglicanos e predicadores protestantes que durante séculos defenderam a morte e a fusão do poder terreno com o celestial. O fundamentalismo cristão nasceu, cresceu e reproduziu-se graças ao poder do dinheiro e ao dinheiro do poder. Os outros fundamentalismos religiosos não alcançaram esse grau de plena fusão consciente com os poderes estabelecidos.

Fala-se muito da Santa inquisição, no entanto esquecemo-nos dos imensos sofrimentos humanos causados pela evangelização forçada de continentes inteiros, o apoio ao tráfico de escravos, o colonialismo e o imperialismo, o nazi-fascismo e o franquismo, a guerra fria e o anticomunismo fanático, as ditaduras militares latino americanas, as “democracias” ocidentais, o patriarcado... criticamos com razão João Paulo II e denunciamos João Paulo I, no entanto não referimos as organizações e seitas contra revolucionárias protestantes pagas pela CIA.

Para quê prosseguir? Deus condena-se a si próprio.

 

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