O termo “fundamentalismo” surge
como resposta à obra de Carles Darwin, mas é já um importante
fenómeno do nosso tempo.
O fundamentalismo causará um
importante impacto no mundo nos próximos anos e, o mais provável, é
que não desapareça nem se debilite. É, por isso, conveniente
reconhecermos a necessidade e o direito a uma política de diferença,
este direito à diferença deve aplicar-se tanto dentro como entre
culturas, regiões, comunidades étnicas.
Poderíamos começar por discutir
mais profundamente este fenómeno para terminarmos reconhecendo o
pouco preparados que nos encontramos para o fazer. Os
fundamentalistas têm uma ideia clara e concisa do que pretendem; é
por isso um fenómeno a não ser ignorado, que deveria ter uma
resposta igualmente clara e concisa.
Existe uma modernidade evidente
na linguagem e na ideologia dos fundamentalistas. Apesar de
recorrerem ao passado e a símbolos tradicionais, a linguagem e a
política dos fundamentalistas pode considerar-se uma forma de
ideologia contemporânea que usa temas tradicionais e o clássico com
fins modernos.
As funções gerais de ideologia
política são bem conhecidas: estabelecer uma identidade, oferecendo
uma história legítima de actos heróicos, de tradição e opressões,
uma moralidade de luta e munida de sacrifícios, um programa de
mobilização e execução de poder e, na etapa final, o estabelecimento
de um modelo de construção de uma nova sociedade, dentro da qual
haja um conjunto de princípios designados para legitimar a negação
de poder àqueles que pretendam desafiar a nova ordem. Na história
temos muitos exemplos disto – liberalismo, fascismo, comunismo e as
diversas variantes – no entanto, talvez o enfoque mais apropriado,
como apontaram vários autores, entre eles Sami Zabeida(1)
e Ervard Abrahamian(2), tenha sido o populismo.
Trata-se de uma ideologia
amplamente interclassista que destaca a “virtude” do povo e a
corrupção económica e moral dos seus opressores. Igualmente
característicos do populismo é o nacionalismo, a afixação e as
teorias conspirativas e a hostilidade contra os estrangeiros, que se
apresenta de várias formas.
Neste momento, em que surge um
novo conjunto de movimentos dogmáticos e agressivos, encontram-se
comprometidos uma série de valores individualistas, críticos,
democráticos e necessariamente seculares.
Poderia ser uma crítica baseada
no relativismo cultural: “Que direito temos de impor os ‘nossos’
valores a outros povos?”. Em segundo lugar e em concernância com a
pós modernidade, a forma daqueles que defendem que não podemos estar
seguros de nenhum valor racional e ilustrado, abordando uma
indeterminação analítica e ética “desconstruída” e inquietante, uma
política de diferenças. Finalmente, do campo da filosofia moral
contemporânea, defende-se que não podemos estar seguros de nenhum
princípio moral de carácter geral e, muito menos, daqueles que
deveriam ser defendidos por cima de tradições e comunidades.
Esta última ideia, em termos
gerais, é compartilhada simultaneamente por Alasdair Macintyre,
Stuart Hampsire e Raymond Plant(3).
Verena Stolcke, licenciada e
doutorada em antropologia social pela Universidade Autónoma de
Barcelona e pela Universidade de Oxford respectivamente, na sua
tese tenta explicar a difusão das hostilidades e da violência na
Europa contra os imigrantes precedentes do Terceiro Mundo.
Debate-se intensamente a
concepção de uma Europa supranacional culturalmente integrada e o
espaço que se deve conceder às distintas culturas e identidades
nacionais e regionais. Detecta-se, cada vez mais, a necessidade de
fomentar entre os europeus um sentimento de cultura compartilhada e
de identidade de objectivos, para reforçar a união política e
económica da Europa. Pelo contrário, os imigrantes, sobretudo
precedentes de uma África pobre e mais recentemente do Leste, que
buscam melhores condições de vida, são considerados em toda a Europa
ocidental como forasteiros indesejados, como estrangeiros. Os
imigrantes extra-comunitários sofrem uma crescente hostilidade e
violência porque os políticos de direita e os governos conservadores
alimentam uma retórica de exclusão, que exalta a identidade nacional
baseada na exclusividade cultural.
“Quanto mais permeáveis são as
fronteiras no interior da Europa, mais estritamente cerrados
permanecem os limites frente ao exterior.”(4) A cidadania
europeia culpa, cada vez mais, os imigrantes de não terem a sua
moral e os seus valores culturais, de todas as desgraças socio-económicas.
Também os Estados Unidos, a “Terra dos Sonhos”, temem a ilusão de
uma “inundação de imigrantes”, de uma “bomba de imigração”.
É evidente que não se pode culpar
os imigrantes do aumento do desemprego e dos deficientes serviços
sociais, “eles” são verdadeiros bodes expiatórios dos “nossos”
problemas socio-económicos. O argumento torna-se tão convincente
porque apela aos “hábitos nacionais”, uma noção exclusivista de
pertença e possessão de direitos políticos e económicos, que
caracteriza a ideia moderna da nação-estado(5).
No início dos anos 80, Dummet
assinalou na Grã-Bretanha uma transformação na terminologia
utilizada para referir os imigrantes. Subentendia-se uma tendência
para responsabilizar das tensões sociais os imigrantes provenientes
de outras culturas, sem que importasse a conotação racial.(6)
Já em finais dos anos 60, a
direita britânica exaltava “a cultura britânica” e a “comunidade
social” e distanciava-se das categorias raciais, negando
insistentemente que a sua hostilidade e a solicitude para limitar os
imigrantes tinha algo a ver com racismo. Argumentavam que as pessoas,
por natureza, preferem viver entre os seus semelhantes, mais do que
numa sociedade multicultural. Grandes quantidades de imigrantes
destruiriam a “homogeneidade da nação”, poriam em perigo os valores
culturais da maioria e desatariam num conflito social. Eram medos
irracionais e instintivos, apoiados em sentimentos de lealdade e
pertença.(7)
Na direita francesa tem-se
assistido a uma transformação similar na retórica da exclusão. É
importante referir o que Taguieff(6) denominou de
“racismo diferencial”, uma doutrina que exagera a influência
cultural essencial e irredutível das comunidades de imigrantes não
europeias, que amenizam a identidade cultural do país anfitrião.
Em 1984, o Parlamento Europeu
convocou um comité de investigação para perspectivar sobre o aumento
do fascismo e do racismo na Europa, tendo como primeiro objectivo
avaliar a difusão e o significado da hostilidade contra os
imigrantes.(6)
A noção de xenofobia entrava,
portanto, na terminologia do Parlamento Europeu, tentando
posteriormente dissipar a sua ambiguidade. Os meios de comunicação
social e os políticos também reconhecem a terminologia e, em geral,
pode considerar-se que captou a atenção europeia.(7)
Uma comparação sistemática de
base ideológica do racismo tradicional e este fundamentalismo
cultural consiga, quiçá, aclarar a diferença existente entre ambos.
Ambos contestam a ideia de que
todos os seres humanos são iguais e livres por natureza, sob a
perspectiva da discriminação e da exclusão, no entanto procedem de
maneira diferente. Por um lado, o racismo ocidental moderno
justifica a superioridade nacional, a desclassificação socio-política
e a exploração económica de grupos de indivíduos dentro do estado,
atribuindo certos defeitos morais, intelectuais e/ou sociais,
provenientes da sua herança cultural. Pelo contrário, o
fundamentalismo cultural adopta uma série simétrica de conceitos
opostos, o conceito de estrangeiro, intruso, forasteiro, em oposição
ao nacional, ao cidadão.
O ser humano, por definição, é
portador de cultura. No entanto, a humanidade é formada por uma
multiplicidade infinita de distintas culturas e as relações entre os
seus membros são intrinsecamente conflituosas.
Recentemente, o
Papa João Paulo II reconheceu que, afinal, houve fundamentalismo
levado às últimas e mais cruéis consequências na evangelização dos
novos mundos. Afinal, houve a monstruosidade histórica da Inquisição.
Afinal, a Igreja triunfante nem sempre soube ou quis opor-se como
devia ao nazismo.
As críticas
chegaram antes mesmo que o Papa divulgasse o documento(8).
Em geral, apontam-lhe um carácter “vago” e “falta de coragem”, ao
remeter as culpas da Igreja e do Papado, algumas das quais envolvem
crimes sangrentos contra a humanidade, para o rol de “erros”
praticados por “cristãos que não souberam opor-se”.
Ainda não se
pronunciou a Igreja portuguesa, herdeira da que deu a benção aos
batalhões da guerra colonial, que fechou os olhos à repressão, que
denunciou à polícia e perseguiu a própria Igreja e com ela milhares
de cristãos que “souberam opor-se”. Porque uma foi em Portugal a
Igreja do Cardeal Cerejeira, amigo do peito, confidente e
conselheiro do ditador, e outra já diferente, embora ainda timorata,
foi a Igreja de D. António Ribeiro, um homem de carácter enredado
nas malhas de uma hierarquia acomodada e reaccionária. Tal como, por
exemplo, uma foi a Igreja corajosa, popular e sofredora de Díli e
outra a Igreja Católica de Jacarta, veneradora dos generais
sanguinários.
Enfim, mais alguns “erros” que um
outro Papa, daqui por uns anos, vai reconhecer, fugindo certamente
ao esclarecimento sobre quem fez o quê, onde e quando. Nem sequer
certamente irá dizer que foi este Papa, João Paulo II, quem cometeu
o “erro” medonho de pregar uma cruzada contra a contracepção a um
Terceiro Mundo que vai morrendo de fome e de peste.