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Fundamentalismo

Patrícia Nogueira da Silva

Escola Superior de Jornalismo do Porto

Abril de 2000

 

   
 

O termo “fundamentalismo” surge como resposta à obra de Carles Darwin, mas é já um importante fenómeno do nosso tempo.

O fundamentalismo causará um importante impacto no mundo nos próximos anos e, o mais provável, é que não desapareça nem se debilite. É, por isso, conveniente reconhecermos a necessidade e o direito a uma política de diferença, este direito à diferença deve aplicar-se tanto dentro como entre culturas, regiões, comunidades étnicas.

Poderíamos começar por discutir mais profundamente este fenómeno para terminarmos reconhecendo o pouco preparados que nos encontramos para o fazer. Os fundamentalistas têm uma ideia clara e concisa do que pretendem; é por isso um fenómeno a não ser ignorado, que deveria ter uma resposta igualmente clara e concisa.

Existe uma modernidade evidente na linguagem e na ideologia dos fundamentalistas. Apesar de recorrerem ao passado e a símbolos tradicionais, a linguagem e a política dos fundamentalistas pode considerar-se uma forma de ideologia contemporânea que usa temas tradicionais e o clássico com fins modernos.

As funções gerais de ideologia política são bem conhecidas: estabelecer uma identidade, oferecendo uma história legítima de actos heróicos, de tradição e opressões, uma moralidade de luta e munida de sacrifícios, um programa de mobilização e execução de poder e, na etapa final, o estabelecimento de um modelo de construção de uma nova sociedade, dentro da qual haja um conjunto de princípios designados para legitimar a negação de poder àqueles que pretendam desafiar a nova ordem. Na história temos muitos exemplos disto – liberalismo, fascismo, comunismo e as diversas variantes – no entanto, talvez o enfoque mais apropriado, como apontaram vários autores, entre eles Sami Zabeida(1) e Ervard Abrahamian(2), tenha sido o populismo.

Trata-se de uma ideologia amplamente interclassista que destaca a “virtude” do povo e a corrupção económica e moral dos seus opressores. Igualmente característicos do populismo é o nacionalismo, a afixação e as teorias conspirativas e a hostilidade contra os estrangeiros, que se apresenta de várias formas.

Neste momento, em que surge um novo conjunto de movimentos dogmáticos e agressivos, encontram-se comprometidos uma série de valores individualistas, críticos, democráticos e necessariamente seculares.

Poderia ser uma crítica baseada no relativismo cultural: “Que direito temos de impor os ‘nossos’ valores a outros povos?”. Em segundo lugar e em concernância com a pós modernidade, a forma daqueles que defendem que não podemos estar seguros de nenhum valor racional e ilustrado, abordando uma indeterminação analítica e ética “desconstruída”  e inquietante, uma política de diferenças. Finalmente, do campo da filosofia moral contemporânea, defende-se que não podemos estar seguros de nenhum princípio moral de carácter geral e, muito menos, daqueles que deveriam ser defendidos por cima de tradições e comunidades.

Esta última ideia, em termos gerais, é compartilhada simultaneamente por Alasdair Macintyre, Stuart Hampsire e Raymond Plant(3).

   Verena Stolcke, licenciada e doutorada em antropologia social pela Universidade Autónoma de Barcelona e pela Universidade  de Oxford respectivamente, na sua tese tenta explicar a difusão das hostilidades e da violência na Europa contra os imigrantes precedentes do Terceiro Mundo.

Debate-se intensamente a concepção de uma Europa supranacional culturalmente integrada e o espaço que se deve conceder às distintas culturas e identidades nacionais e regionais. Detecta-se, cada vez mais, a necessidade de fomentar entre os europeus um sentimento de cultura compartilhada e de identidade de objectivos, para reforçar a união política e económica da Europa. Pelo contrário, os imigrantes, sobretudo precedentes de uma África pobre e mais recentemente do Leste, que buscam melhores condições de vida, são considerados em toda a Europa ocidental como forasteiros indesejados, como estrangeiros. Os imigrantes extra-comunitários sofrem uma crescente hostilidade e violência porque os políticos de direita e os governos conservadores alimentam uma retórica de exclusão, que exalta a identidade nacional baseada na exclusividade cultural.

“Quanto mais permeáveis são as fronteiras no interior da Europa, mais estritamente cerrados permanecem os limites frente ao exterior.”(4) A cidadania europeia culpa, cada vez mais,  os imigrantes de não terem a sua moral e os seus valores culturais, de todas as desgraças socio-económicas. Também os Estados Unidos, a “Terra dos Sonhos”, temem a ilusão de uma “inundação de imigrantes”, de uma “bomba de imigração”.

É evidente que não se pode culpar os imigrantes do aumento do desemprego e dos deficientes serviços sociais, “eles” são verdadeiros bodes expiatórios dos “nossos” problemas socio-económicos. O argumento torna-se tão convincente porque apela aos “hábitos nacionais”, uma noção exclusivista de pertença e possessão de direitos políticos e económicos, que caracteriza a ideia moderna da nação-estado(5).

No início dos anos 80, Dummet assinalou na Grã-Bretanha uma transformação na terminologia utilizada para referir os imigrantes. Subentendia-se uma tendência para responsabilizar das tensões sociais os imigrantes provenientes de outras culturas, sem que importasse a conotação racial.(6)

Já em finais dos anos 60, a direita britânica exaltava “a cultura britânica” e a “comunidade social” e distanciava-se das categorias raciais, negando insistentemente que a sua hostilidade e a solicitude para limitar os imigrantes tinha algo a ver com racismo. Argumentavam que as pessoas, por natureza, preferem viver entre os seus semelhantes, mais do que numa sociedade multicultural. Grandes quantidades de imigrantes destruiriam a “homogeneidade da nação”, poriam em perigo os valores culturais da maioria e desatariam num conflito social. Eram medos irracionais e instintivos, apoiados em sentimentos de lealdade e pertença.(7)

Na direita francesa tem-se assistido a uma transformação similar na retórica da exclusão. É importante referir o que Taguieff(6) denominou de “racismo diferencial”, uma doutrina que exagera a influência cultural essencial e irredutível das comunidades de imigrantes não europeias, que amenizam a identidade cultural do país anfitrião.

Em 1984, o Parlamento Europeu convocou um comité de investigação para perspectivar sobre o aumento do fascismo e do racismo na Europa, tendo como primeiro objectivo avaliar a difusão e o significado da hostilidade contra os imigrantes.(6)

A noção de xenofobia entrava, portanto, na terminologia do Parlamento Europeu, tentando posteriormente dissipar a sua ambiguidade. Os meios de comunicação social e os políticos também reconhecem a terminologia e, em geral, pode considerar-se que captou a atenção europeia.(7)

Uma comparação sistemática de base ideológica do racismo tradicional e este fundamentalismo cultural consiga, quiçá, aclarar a diferença existente entre ambos.

Ambos contestam a ideia de que todos os seres humanos são iguais e livres por natureza, sob a perspectiva da discriminação e da exclusão, no entanto procedem de maneira diferente. Por um lado, o racismo ocidental moderno justifica a superioridade nacional, a desclassificação socio-política e a exploração económica de grupos de indivíduos dentro do estado, atribuindo certos defeitos morais, intelectuais e/ou sociais, provenientes da sua herança cultural. Pelo contrário, o fundamentalismo cultural adopta uma série simétrica de conceitos opostos, o conceito de estrangeiro, intruso, forasteiro, em oposição ao nacional, ao cidadão.

O ser humano, por definição, é portador de cultura. No entanto,  a humanidade é formada por uma multiplicidade infinita de distintas culturas e as relações entre os seus membros são intrinsecamente conflituosas.

Recentemente, o Papa João Paulo II reconheceu que, afinal, houve fundamentalismo levado às últimas e mais cruéis consequências na evangelização dos novos mundos. Afinal, houve a monstruosidade histórica da Inquisição. Afinal, a Igreja triunfante nem sempre soube ou quis opor-se como devia ao nazismo.

As críticas chegaram antes mesmo que o Papa divulgasse o documento(8). Em geral, apontam-lhe um carácter “vago” e “falta de coragem”, ao remeter as culpas da Igreja e do Papado, algumas das quais envolvem crimes sangrentos contra a humanidade, para o rol de “erros” praticados por “cristãos que não souberam opor-se”.

Ainda não se pronunciou a Igreja portuguesa, herdeira da que deu a benção aos batalhões da guerra colonial, que fechou os olhos à repressão, que denunciou à polícia e perseguiu a própria Igreja e com ela milhares de cristãos que “souberam opor-se”. Porque uma foi em Portugal a Igreja do Cardeal Cerejeira, amigo do peito, confidente e conselheiro do ditador, e outra já diferente, embora ainda timorata, foi a Igreja de D. António Ribeiro, um homem de carácter enredado nas malhas de uma hierarquia acomodada e reaccionária. Tal como, por exemplo, uma foi a Igreja corajosa, popular e sofredora de Díli e outra a Igreja Católica de Jacarta, veneradora dos generais sanguinários.

Enfim, mais alguns “erros” que um outro Papa, daqui por uns anos, vai reconhecer, fugindo certamente ao esclarecimento sobre quem fez o quê, onde e quando. Nem sequer certamente irá dizer que foi este Papa, João Paulo II, quem cometeu o “erro” medonho de pregar uma cruzada contra a contracepção a um Terceiro Mundo que vai morrendo de fome e de peste.

 

Notas bibliográficas  
 

(1)     – ZABEIDA, S.: Islam, the people and the state, Routledge, 1989

(2)     – ABRAHAMIAN, E.:Khomeinnism. Essays on the Islamic Republic, I.B. Tauris, 1993

(3)     – Revista “Razon Española”,nº88, editorial

(4)     – STOLCKE, Verena, tese de doutoramento em antropologia social pela Universidade de Oxford

(5)     – ELIAS, N. La société des individus, Fayard, Paris, 1991

(6)     – DUMMETT, A. e MARTIN, I, British nationalism: The AGIN guide to the new law, Londres, Action group on imigration and nationality/National council for civil liberties, 1982

(7)     –BARKER, M. E BEEZER, A., The language of racism :a examination of Lord Scarman’s report on the Brixton riots, International Socialism 2, 25-108, 1983

(8)     – TAGUIEFF, P.A., La force du prejugé, Essai sur le racisme et ses doubles, Édition la Découverte, Paris, 1987

– TAGUIEFF, P.A., Face au Racisme, Vol. 1 Les Moyens d’agir, Éditions la Découverte, Essais, Paris, 1991

(9)     – EVREGENIS, M. D., Report Draw up  the Behalf of the Committee of Inquiry. PE DOC A 2-160/85, Bruxelas, 1985

(10) – PARLAMENTO EUROPEU, Declaration against racism and xenophobia, Bruxelas, 1986

(11) – GUERRA, João Paulo, Diário Económico, 13 de Março de 2000

   
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