Manhã Incerta
A costa já não estava longe. Meia dúzia de
milhas e já se avistava terra. Mas naquela manhã, um nevoeiro cerrado
cobria o mastro, a popa, a proa. O cheiro a maresia intensificou-se e o
dia teimava em não nascer, coberto por aquele nevoeiro denso. Ao fundo,
já se via a luz do farol, que ora vinha, ora ia, e regressava sempre. A
costa é que nem vê-la.
O velho lobo-do-mar já estava habituado
aos caprichos da natureza. Trinta anos a navegar ao sabor das correntes,
embalado pelas ondas de intempéries. O pescador recém-chegado, novato
naquelas andanças e nas andanças do mundo, é que se sentia inquieto.
- Ainda falta muito?
O velho pescador passou a mão pela barba
de três dias, tirou o chapéu, coçou a careca, com ar de sabedoria e de
pensamentos profundos, e riu-se. Lembrou-se, de repente, das primeiras
viagens em que levara o filho, ainda criança, sempre impaciente por
chegar ao destino. Riu-se também da inquietação do novato. Estavam tão
perto. O que havia a temer?
Entrou na cabine para verificar a rota.
Confirmou as coordenadas. Não tardaria muito até estar recostado na
espreguiçadeira do alpendre. Esperava que a mulher lhe levasse o almoço,
esperava que o filho comprasse o jornal, esperava as raparigas que saíam
da escola, para espreitar as pernas morenas despidas de mini-saias. Uma
tarde descansada, a ler o jornal e a aproveitar os raios de sol que
agora tardavam em nascer. Se ao menos o vento ajudasse, já teria
atracado o barco.
O jovem pescador começava a ficar
impaciente. Estavam ali parados, sem vento nem ondas, há quase duas
horas, e o barco teimava em não andar. Prometeu à noiva que a levava à
igreja para marcar o enlace. Bem tentou fugir, mas a rapariga não o
largava e já não podia adiar mais o momento que ela, os pais, os pais
dele, a aldeia de pescadores, todos esperavam. Já que tinha de ser,
então que chegasse depressa essa hora. Mas agora era o barco que
boicotava a decisão que ele, tão dificilmente, já tinha tomado.
Nem uma gaivota os vinha visitar. A seis
milhas da costa, estavam à deriva, sem ver mais do que um palmo, sem
perceberem se era dia ou noite.
Na aldeia o sol já raiava alto. As
mulheres chegavam ao porto, empoleiravam o cesto de peixe e partiam
pelas ruas, à procura de sustento. Os homens do mar já lavavam os cestos
da faina, arrumavam os barcos e partiam em direcção à tasca, para o
primeiro bagaço.
No alto mar, as gaivotas disputavam os
restos dos peixes dilacerados pelas redes, que brilhavam ao sol como se
fossem de prata. A suave ondulação do mar reflectia a luz do grande
astro. O céu estava azul. Via-se para lá do horizonte.
Só naquele reduto de mar o tempo parou.
Duas vidas suspensas, envoltas num nevoeiro cerrado, tentavam encontrar
um rumo. Ali, à deriva, entre a costa e o alto-mar, dois olhares
procuram a direcção a seguir. Nadar para a costa ou mergulhar no
alto-mar?