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Maria Cruz
A Solitária
Olhar de Menina
Manhã Incerta

 

 

Manhã Incerta

A costa já não estava longe. Meia dúzia de milhas e já se avistava terra. Mas naquela manhã, um nevoeiro cerrado cobria o mastro, a popa, a proa. O cheiro a maresia intensificou-se e o dia teimava em não nascer, coberto por aquele nevoeiro denso. Ao fundo, já se via a luz do farol, que ora vinha, ora ia, e regressava sempre. A costa é que nem vê-la.

O velho lobo-do-mar já estava habituado aos caprichos da natureza. Trinta anos a navegar ao sabor das correntes, embalado pelas ondas de intempéries. O pescador recém-chegado, novato naquelas andanças e nas andanças do mundo, é que se sentia inquieto.

- Ainda falta muito?

O velho pescador passou a mão pela barba de três dias, tirou o chapéu, coçou a careca, com ar de sabedoria e de pensamentos profundos, e riu-se. Lembrou-se, de repente, das primeiras viagens em que levara o filho, ainda criança, sempre impaciente por chegar ao destino. Riu-se também da inquietação do novato. Estavam tão perto. O que havia a temer?

Entrou na cabine para verificar a rota. Confirmou as coordenadas. Não tardaria muito até estar recostado na espreguiçadeira do alpendre. Esperava que a mulher lhe levasse o almoço, esperava que o filho comprasse o jornal, esperava as raparigas que saíam da escola, para espreitar as pernas morenas despidas de mini-saias. Uma tarde descansada, a ler o jornal e a aproveitar os raios de sol que agora tardavam em nascer. Se ao menos o vento ajudasse, já teria atracado o barco.

O jovem pescador começava a ficar impaciente. Estavam ali parados, sem vento nem ondas, há quase duas horas, e o barco teimava em não andar. Prometeu à noiva que a levava à igreja para marcar o enlace. Bem tentou fugir, mas a rapariga não o largava e já não podia adiar mais o momento que ela, os pais, os pais dele, a aldeia de pescadores, todos esperavam. Já que tinha de ser, então que chegasse depressa essa hora. Mas agora era o barco que boicotava a decisão que ele, tão dificilmente, já tinha tomado.

Nem uma gaivota os vinha visitar. A seis milhas da costa, estavam à deriva, sem ver mais do que um palmo, sem perceberem se era dia ou noite.

Na aldeia o sol já raiava alto. As mulheres chegavam ao porto, empoleiravam o cesto de peixe e partiam pelas ruas, à procura de sustento. Os homens do mar já lavavam os cestos da faina, arrumavam os barcos e partiam em direcção à tasca, para o primeiro bagaço.

No alto mar, as gaivotas disputavam os restos dos peixes dilacerados pelas redes, que brilhavam ao sol como se fossem de prata. A suave ondulação do mar reflectia a luz do grande astro. O céu estava azul. Via-se para lá do horizonte.

Só naquele reduto de mar o tempo parou. Duas vidas suspensas, envoltas num nevoeiro cerrado, tentavam encontrar um rumo. Ali, à deriva, entre a costa e o alto-mar, dois olhares procuram a direcção a seguir. Nadar para a costa ou mergulhar no alto-mar?

 
 

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