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A Propaganda Radiofónica nos Anos 90©

Patrícia Nogueira da Silva

Escola Superior de Jornalismo do Porto

Maio de 2000

 

  Introdução

A Propaganda Política

A Informação Subjugada

A Rádio nos Países de Leste

Liberdade de Expressão

Conclusão

 

Introdução  
 

A rádio é a única forma de arte não-visual, excluindo a música. Usa efeitos para estimular a imaginação do ouvinte, levando-o a criar as suas próprias imagens das pessoas e dos lugares.

A propaganda, não só na rádio como na televisão, jornais e revistas, pretende alterar a opinião de uma massa sobre determinado assunto.

Os governos sempre foram os principais motores de propaganda, principalmente em alturas de guerra. Para isso usou os diversos mass media, mas sobretudo a rádio, para despertar o patriotismo nos seus cidadãos e confundirem o inimigo, dando-lhe informações erradas.

Nos estados de regimes totalitários, a rádio é usada para transmitir mensagens coerentes e consistentes sem contradição. A União Soviética, depois de 1921, mobilizou uma vasta campanha radiofónica, acompanhada de slogans chamativos e leituras apelativas aos méritos do socialismo.

Há ainda que considerar a mistura de informação e ficção levada a cabo por alguns governos e denominada, a partir dos anos 70, de desinformação.

 

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A Propaganda Política  
 

Actualmente, mais do que falar na competência de um político, fala-se na eficácia da sua campanha. Tudo se resume a marketing político, à imagem de determinada pessoa, à sua postura e dicção, à sua intervenção em entrevista aos media.

Desde Franklin D. Roosevelt que todos os presidentes americanos se têm socorrido a um aparelho de propaganda. Mas, Reagan, Gergen, Deaver e os seus colaboradores deram mostra de uma mestria inigualável neste domínio. O próprio James Lake, adido de imprensa de Reagen e Bush na campanha de 1984, reconheceu que Ronald Reagan “é a última mercadoria presidencial (...), o bom produto”.

O correspondente da ABC News na Casa Branca, Sam Donaldson, chegou até a afirmar que “se a administração Reagan consegue dirigir o seu aparelho de propaganda muito melhor que os seus antecessores é porque tem o sentimento de, por direito divino, poder fazer o que bem entende em matéria de manipulação”.

 

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A informação Subjugada  
 

Entraves múltiplos limitam, nas sociedades democráticas, a liberdade de expressão e informação. O dinheiro é um dos poderes que ameaça o direito dos cidadãos ao pluralismo da informação. Já não se fala na propriedade de uma rádio ou de um jornal. Geralmente, os meios de comunicação encontram-se aglomerados num grupo económico servindo, naturalmente, os interesses dos seus proprietários, sem se preocupar com a livre e isenta informação. Robert Hersant, Robert Maxwell e Rupert Murdoch compram, absorvem e controlam um número cada vez maior de media, enquanto o estado se desresponsabiliza privatizando os meios que possui.

Em França, o intervencionismo do legislador – seis grandes reformas do audiovisual entre 1959 e 1988 – teria comprometido as estratégias a longo prazo de grupos aptos a rivalizar com empresas europeias de comunicação, tais como Bertelsmann e Berlusconi. No entanto, à excepção da concorrência entre as rádios privadas e do Estado, foram bem tímidas as tentativas de diversificação(1). Neste sector foi preciso esperar a lei de 29 de julho de 1982 para que fosse especificado que “a comunicação audiovisual é livre”.

 

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A Rádio nos Países de Leste  
  O Estado e a Informação

Se nas “democracias” ocidentais existe manipulação e propaganda, ainda que dissimulada, nos países de Leste estes factores conseguem ser mais evidentes.

Segundo o relatório referente à liberdade de imprensa 1999, editado por Freedom House Survey (FHS), nos países como o Iraque, Cazaquistão e Azerbeijão não podem ser livres(2).

No Iraque, a difusão por meios de comunicação social é tarefa do estado. Há pena de morte para quem insultar o presidente ou qualquer membro oficial do governo. As rádios clandestinas encontram-se em franca expansão, já que não são permitidas publicações e emissões fora do partido do poder.

Já no Cazaquistão, o Estado controla, não só os seus próprios media, como também os que são considerados independentes. A lei de desrespeito ao presidente e de abuso de poder por parte dos jornalistas são frequentemente invocadas pelas autoridades. Uma estação de rádio viu a sua licença confiscada por violar a lei de 1996, referente à língua de emissão. As licenças raramente são atribuídas a rádios comerciais.

No Azerbeijão, durante as eleições presidenciais, a rádio deu especial importância ao partido no poder. Mesmo assim, dezenas de jornalistas foram impedidos de realizar o seu trabalho, pelo menos dez foram presos e um foi acusado de “danos morais” contra um polícia governamental. Ainda no ano de 1999, 35 jornalistas que tentaram cobrir uma manifestação banal foram barrados e muito do seu equipamento foi confiscado.

A Roménia, ainda que considerada “parcialmente livre” pelo mesmo relatório, controla os media electrónicos (rádio e televisão). Existem cerca de 100 rádios privadas, todas elas comprometidas politicamente, enquanto as rádios públicas são veículos de influência política, de acordo com a maioria parlamentar.

Na Turquia, os media são proibidos de expressar pontos de vista da oposição política e críticas ao governo. Na verdade, a difamação não é problema porque todos os media são mais controlados do que na Era Soviética. O correspondente da Radio Free Europe (RFE) foi espancado duas vezes, ficando da última vez 43 dias hospitalizado. Todos os jornalistas são empregados do Estado.

Para finalizar, podemos apontar o caso do Uzbequistão , onde os media da oposição são ilegais, os existentes são governamentais, religiosos, militares ou de outras organizações associadas ao Estado. Em 1998, um jornalista de rádio foi condenado a onze anos de prisão por “difamação”.

O Caso Particular do Kosovo

O Kosovo revelou-se um caso muito particular. Quando todos os outros media se demonstraram ineficazes, a rádio foi o único meio que os subsistiu, informando o que se passava no interior da guerra.

A “kontakt” foi uma rádio que trabalhou para apaziguar a situação em que o Kosovo viveu. Infelizmente, devido à guerra, as suas emissões duraram apenas 15 dias. Tratava-se de um serviço que englobava várias etnias “rivais” que conseguiam trabalhar em conjunto. Tentava emitir notícias de ambos os lados e música em inglês (para não ferir susceptibilidades).

”Para manter a paz, é melhor ter rádios do que ter polícias” afirma Zvonko Tarlet, um jornalista croata mentor da ideia da rádio kontakt.

Prepara-se já a emissão da RTK (Rádio e Televisão Kosovo). Os seus responsáveis caracterizam o projecto como sendo um serviço público, não governamental. Em princípio deve ser produzido por kosovares, direccionado para a população do Kososvo.

O conflito dos Balcãs demonstra bem a censura e a propaganda radiofónica. A 2 de Abril de 1992, a rádio B92 foi encerrada por polícias jugoslávos, limitando a liberdade de expressão. A censura militar foi a primeira a fazer-se sentir, condicionando os noticiários a nacionalismos ou pontos de vista de grupos sociais.

 

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Liberdade de Expressão  
 

Radio Free Europe / Radio Liberty

 A Radio Free Europe / Radio Liberty é um serviço internacional de rádio privado que emite em 26 línguas e atinge 35 milhões de ouvintes. Pretende ser um meio alternativo nos países onde os media se encontram sufocados por uma economia caótica e sem isenção editorial.

Da Polónia ao Pacífico, do Árctico ao Golfo Pérsico emite em ondas curtas e utiliza parceria com 100 estações de AM/FM, excepto na Bielorússia, Irão, Iraque, Tadjiquistão e Turquemenistão. Como suporte, a RFE / RL mantém uma presença activa na internet(3).

Desde 1975 que esta entidade difunde valores e instituições democráticas, ajudando as pessoas desta região a ultrapassar os seus problemas e a promover a estabilidade essencial para a paz.

Os seus objectivos passam por noticiar objectivamente, discutir e analisar problemas cruciais desta região para a democracia; tenta combater a intolerância ética e religiosa; assegura um modelo para os media locais, formando os profissionais de forma independente.

Em alguns países, a organização mantém boas relações com os meios de comunicação e com os jornalistas locais, mas noutros tem de lidar com a antipatia do governo.

Durante a Guerra Fria, a União Soviética e outros membros do Pacto do Varsóvia interceptavam regularmente os sinais da RFE. Os presidentes da Polónia e da Estónia qualificaram de “fundamental” o trabalho desta rádio para o fim do comunismo na região e o presidente checo declarou que “precisamos do vosso profissionalismo e da vossa habilidade para ver os acontecimentos numa outra perspectiva”.

Entretanto a RFE / RL teve de suspender o serviço na Polónia e reduzi-lo substancialmente na Checoslováquia, abrindo emissões na Jugoslávia e no Iraque e lançando o serviço em língua persa. O South Slavic Service, iniciado em 1993, junta jornalistas da Bósnia, Croácia e Sérvia e pretende lembrar às pessoas que um dia estes povos já viveram juntos e em paz e que poderiam voltar a fazê-lo.

Nova Dimensão

Uma das técnicas mais utilizadas pela rádio, nos dias de hoje e possivelmente nos de amanhã, é a transmissão via internet. Utilizando esta ferramenta do ciber-espaço, a rádio pode emitir toda a informação e programação sem qualquer controlo.

Uma grande parte das rádios mundiais utilizam já este sistema, nem sempre para fugir à censura, proporcionando aos navegadores a sua informação, debates, música em real audio , em qualquer parte do mundo.

Infelizmente os países subdesenvolvidos, talvez os que mais precisam de informação livre e isenta, ainda não possuem material ou formação, bem como capacidades económicas para acederem ao mundo virtual, o que continua a colocá-los em desigualdade com o “mundo civilizado”.

De qualquer forma, a internet constitui um sistema permissível de fuga ao possível controlo de informação, tratando-se ou não de casos de conflito.

 

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Conclusão  
 

A exposição acima apresentada pretende alertar para a propaganda da actualidade. Não é necessário falar de democracias em desenvolvimento ou de ditaduras, podemos considerar que as democracias estabelecidas também usam a rádio, ou qualquer outro meio, para propagandear, quer mensagens políticas quer objectos de consumo. Por outras palavras, vivemos numa plutocracia mediática, na qual apenas os proprietários dos meios de comunicação social têm oportunidade de expressar a sua concepção do mundo. E assim, a rádio, de instrumento de comunicação, transformou-se num fenómeno rentável e muito pretendido.

Por outro lado, os países do leste europeu e asiáticos encontram ainda vários entraves à livre circulação de informação. Para além dos exemplos já citados, podemos ainda apontar o caso da Coreia do Norte que se encontra fechada ao mundo, onde os aparelhos de rádio se encontram bloqueados nas estações oficiais.

 

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Notas bibliográficas  
 

1 – GUILLON, Bernard, Les Stratégies Multimedia des groups de Communication, La Documentation française, Paris, 1984

 2 – relatório publicado em http://freedomhouse.org/pfs99/reports.html

 3 – página disponível em http://www.rfe/rl.org

Bibliografia  
 

http://freedomhouse.org

http://www.rfe/rl.org

http://www.osce.org

Vários autores, La Communication victime des marchands, Le Monde Diplomatique, Paris, 1988

Pública, 205, 30 de Abril de 2000, pág. 46

Expresso, Internacional, 17 de Outubro de 1999

Expresso, Vidas, 17 de Abril de 1999

 

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