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Maria Cruz
A Solitária
Olhar de Menina
Manhã Incerta

 

 

A Solitária

 

Lá estava ela. Sozinha, na cela mais temida do estabelecimento prisional. Não sabia, nem imaginava, porque tinha ido lá parar. Só sabia que a tinham mandado para a Solitária e ali estava ela.

Um cubículo com uma cama, o chão frio, as paredes geladas e apenas uma janela, onde nem sempre entrava o sol. As grades que a separavam do mundo deixavam entrar um cheiro intenso a tílias. Provavelmente eram as árvores que estavam na rua, entre os peões e os carros. O odor infiltrava-se na cela, como se a estivesse a provocar – ela não podia sair, mas o cheiro podia entrar.

E ali estava ela. Deitada sobre a cama desfeita, a olhar o céu azul que cobria o mundo de liberdade, lá fora. À noite via as estrelas. Aprendeu a contá-las, a conhecê-las, a chamá-las pelo nome. O céu era tão negro como o interior da cela e as estrelas, lá fora, tinham um brilho intenso, um brilho inalcançável.

A par da Solitária havia outras celas. Mas esses prisioneiros tinham companhia, mesmo enclausurados. Longe da liberdade, essas celas tinham vida. Mas não a Solitária.

Pelas paredes finas, ela ouvia-os falar. Ouvia conversas sobre nada, mas também filosofias sobre a vida e o futuro, ouvia os projectos e os sonhos daqueles que ainda podiam falar, que tinham com quem falar. Mas ela estava só, só na Solitária.

Tinha vontade de gritar. De dar um grito de raiva, de inconformismo, um grito bem alto para se ouvir em todo o corredor. Mas sempre que abria a boca, saía apenas um grito mudo, um grito surdo, um grito que nunca chegava a atingir sequer as paredes da cela. Naquele quadrado inanimado, só se ouvia um silêncio frio e distante, um silêncio ensurdecedor.

Dia após dia, noite após noite, aquela cela foi-se transformando no seu lugar.um grito de raiva, de discordância, um grito bem alto, que se ouviu em todo o corredor.um grito de raiva, de discordância, um grito bem alto, que se ouviu em todo o corredor.um grito de raiva, de discordância, um grito bem alto, que se ouviu em todo o corredor. As paredes começaram a ser desenhadas pelos episódios que se poderiam passar na sua vida, a cama passou a ser a sua companheira, as paredes deixaram de ser o obstáculo e passaram a ser a protecção do mundo. Dia após dia, ela deixou de olhar pela janela e passou a olhar para dentro de si. Noite após noite, as constelações deixaram de fazer sentido e o chão deixou de arrefecer os pés.

Não se adaptou, não mudou de ideias, apenas baixou os braços, deixou de lutar e resignou-se aquele lugar. Continuava a não gostar dos cheiros, a arrepiar-se com as paredes geladas, a sofrer com aquela solidão, mas percebeu que não fazia sentido lutar contra o incompreensível.

Não sabia porque estava ela naquela cela, isolada do mundo. Mas agora, também já não interessava. Ela já era parte daquele lugar – do chão frio, das paredes geladas, da cama desfeita, das grades da janela por onde nunca entrava o sol. Se estava na Solitária, não interessava. Ela própria já se tinha transformado numa Solitária.

 
 

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