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O Culto Termal©

Patrícia Nogueira da Silva

Escola Superior de Jornalismo do Porto

Maio de 2000

 

 

Introdução

Balneários Romanos

Uso Medicinal e Arquitectura

O Uso Religioso

Ninfas

 "Cidades de Água"

Uso dos Balneários

Conclusão

 

Introdução  
 

A percepção da água como bem escasso é um fenómeno recente. Somente, nos últimos tempos se detecta um consenso social generalizado relativo à necessidade de proteger a riqueza hidráulica, de reduzir a poluição sobre este recurso fundamental.

No entanto, a visão “moderna”, carregada de ciência e tecnologia, que entende a água como um recurso cuja verdadeira importância radica à sua escassez que a transformou em riqueza, de certa medida vem do mundo antigo. Quando um aquilegos (engenho hidráulico) romano era oferecido aos deuses muito provavelmente o povo estava a agradecer que a água se tivesse deixado descobrir e conduzir.

A água termal apresenta características diferentes da demais no mundo antigo. Em Roma estava instituída, desde a época imperial, uma prática balnear quotidiana que empregava água aquecida artificialmente. A água termal revelou-se diferente e mais eficaz para efeitos curativos, como o confirma Séneca (QN III,24,2-4: «Facere solemus dracones et miliaria et complures formas in quibus aere tenui fistulas struimus per decliue circumdatas, ut saepe eundem ignem ambiens aqua per tantum fluat spatii quantum efficiendo calori sat est; frigida itaque intrat, effluit calida. Idem sub terra Empedocles existimat fieri, quem non falli crede Baianis quibus balnearia sine igne calefiunt. Spiritus in illa feruens loco aestuarii infunditur; hic per tubos lapsus non aliter quam igne subdito parietes et uasa balnei calefacit; omnis denique frigida transitu mutatur in calidam nec trahit saporem et uaporario quia clausa praelabitur»).

A denominação Aquae implica, no mundo romano, uma agrupação urbana cujo rasgo definitório é o termalismo e o seu aproveitamento urbano. Equivale em significado aos actuais topónimos como Banhos, Caldas, Termas e Aquae, como topónimo antigo e moderno simultaneamente. Por fontes literárias e epigráficas conhecemos cerca de uma centena de agrupações urbanas no mundo romano que tiveram a denominação de Aquae.

A denominação Aquae para uma cidade implica uma eleição por parte dos seus habitantes em utilizar o topónimo do termalismo como característica definidora do núcleo urbano.

 

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Balneários Romanos  
 

Os romanos não tinham um termo específico para se referirem aos estabelecimentos  nos quais utilizavam a água termal natural ou a água de propriedades curativas. Balineum e balneum, assim como balnearius provêm de um préstimo antigo do grego to balaneion; apalavra latina anterior era lauatrina e todas elas apresentam a indeterminação para se referirem a qualquer estabelecimento ou sala onde se realizava a prática do banho.

Thermae é um término em uso na época imperial e referia-se ao estabelecimento onde se tomava banhos quentes sem distinção entre os banhos aquecidos artificial ou naturalmente.

Os estabelecimentos que denominamos balneários apresentam características especiais que se resumem a critérios diferenciados:

1)     Face às termas higiénicas em que a água pode ser manipulada (e deve ser aquecida) nos balneários a água precisa para o seu uso de aquecimento artificial. A própria terra actua como aquecedor e a água surge com potencialidades multiplicadas da sua proveniência subterrânea, pelo que a sua manipulação é desejável para não alterar a sua pureza. Do ponto de vista de técnica construtiva dos balneários, estes não requerem um complexo sistema de hipocausto das termas higiénicas (salvo casos excepcionais em que se utilizassem para aquecimento, como em Badenweiler). Pelo contrário, nos balneários que se estabeleciam de águas hipertermais o verdadeiro problema era deixar esfriar a água para que se pudesse utilizar no banho (temos um exemplo epigráfico desta prática em Gadara – banhos de Hammat Gader).

2)     A água nos balneários medicinais. A finalidade dos complexos balneares medicinais é a recuperação da saúde, ao contrários das termas anteriores em que a finalidade do banho era a higiene: a clientela de ambos será portanto diferente.

Nestes balneários a maioria dos frequentadores seriam enfermos, pessoas numa situação limite, num mundo greco-romano em que a enfermidade estima-se como consequência de um hábito de vida erróneo (do ponto de vista da medicina culta) ou como consequência de uma imaginária incorrecção face ao subtil equilíbrio entre homens e outras potências intermédias (do ponto de vista do que o magistral Luís Gil estudou como medicina popular(1)).

A cura balnear apresenta-se focada em duas perspectivas que, em alguns casos, podem coexistir num mesmo estabelecimento:

-         a cura “científica” que se realizava tendo em conta as características principais de cada água e o seu poder terapêutico especial.Isto pressupõe uma prescrição médica (que conhecemos de modo bastante detalhado, por exemplo no caso do Imperador Augusto(2)) e um certo grado de especialização dentro da profissão.

-         A cura milagrosa, na qual uma divindade actua por meio da água ou a própria água se pressupõe divina. O poder terapêutico proveniente da actuação de um princípio imaginário que habitava ou se manifestava na água; a termalidade aumenta a misteriosa potência do rito do banho. O caso da invocação das Ninfas de Orense tem o especial interesse de nos mostrar uma prática de incubação no balneário: não se deixa o efeito curativo à acção da água, mas busca-se a revelação da causa do mal por parte da divindade, o que se revela com uma carga de novos significados no fenómeno da cura.

Todos estes critérios é necessário utilizar um conceito moderno, na acepção moderna, como é o balneário, para superar a determinação da terminologia antiga e delimitar correctamente o campo de estudo para o tornar mais operativo.

 

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Uso Medicinal e Arquitectura  
 

No mundo romano, a água termal tinha usos diversos, mas o mais fácil de compreender para o mundo contemporâneo é o uso medicinal. A água termal para além de limpar também cura. Os médicos racionalistas romanos começaram de um modo empírico a discernir as propriedades curativas da água termal dependendo dos seus principais componentes, reconhecidos por meio de análises orgânicas (a distinção das diversas propriedades terapêuticas  da água sulfurata, alimunata, bituminata, ferrata ou nitrata). A água que surgia naturalmente quente evitava o processo de aquecimento; acreditava-se que a própria terra tomava conta deste processo e que a água era provida de propriedades múltiplas provenientes da sua origem subterrânea, pelo que a sua manipulação desejava não alterar a sua pureza e propriedades.

Do ponto de vista da técnica construtiva dos balneários, estes não requeriam um complexo sistema de aquecimento das termas higiénicas. Tanto no âmbito arquitectónico como na prática balnear, a água termal tinha as suas próprias regras cuja indeterminação terá levado à confusão terminológica por parte de alguns investigadores (o número de balneários, face às termas higiénicas, é muito pequeno pelo que o volume maior de estudos tenha tratado as termas ou, inclusivamente, misturado os tipos de estabelecimentos como se as suas funções fossem semelhantes). O complexo procedimento do banho romano em termas higiénicas requeriam soluções arquitectónicas bastante estereotipadas, tanto no processo de aquecimento da água como na apresentação das salas para as  diferentes fases do banho. A finalidade do banho nos balneários era medicinal, não higiénica, e a maioria dos seus frequentadores não eram pessoas de poder, pois esses não se submetiam  à habitual combinação de banho frio e quente.

Os balneários têm vindo a ser utilizados desde tempos remotos, mesmo excluindo a banho termal higiénico, mas é reconhecido a partir da tardia república e têm o seu apogeu na época imperial.

Os balneários são geralmente constituídos por uma piscina de imersão em água quente natural e banheiras para o corpo inteiro ou para alguma parte do mesmo, assim como, dependendo das características do espaço, banhos de lama, duches e instalações para inalação de vapores. Em alguns casos possuem salas especiais para o arrefecimento da água, quando esta surgia a uma temperatura excessiva para o uso directo.

Não obstante a existência de uns exemplos de construção termal, os arquitectos romanos tomavam as grandes termas da cidade de Roma como modelo para construção de alguns balneários de maior envergadura.

 

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O Uso Religioso  
 

(o balneário como lugar protegido pela divindade)

A água curativa explica-se, na mentalidade não científica, como uma água mágica: o balneário converte-se num lugar onde a divindade se manifesta do modo mais favorável. É um lugar de acção de graças e um lugar protegido pela divindade. Nas comunidades em que as relações com os estrangeiros ou os intrusos se demonstravam difíceis, os balneários podem transformar-se em locais de consenso, onde a divindade protege os que vêm em busca de cura. Nalguns casos, os complexos termais graças à sua qualidade converteram-se em focos de organizações de intercâmbios nas sociedades em vias de desenvolvimento por pressões sociais. Assim, alguns balneários seriam os núcleos onde se discutia a vida cívica, surgindo “cidades de água” em volta que se definirão económica e politicamente uma comarca (tal como Aquae Flaviae).

Lugares de relação com estrangeiros, onde a convivência mistura e unifica gentes de origens sociais diversas, os balneários são também locais de aculturação e adaptação a novas religiões. A epigrafia galaica oferece um exemplo quase único no ocidente romano. A testificação de cultos a divindades termais, geralmente realizado por personagens com uma onomástica não romana define o primeiro momento do processo de aculturação. Mantém-se o nome pré-romano da divindade e utiliza-se um veículo de transmissão romana (caracteres latinos e lápide epigráfica); houve uma adaptação do tipo de prestação no entanto manteve-se o teónimo. Um passo mais avançado no processo leva a uma adopção do nome romano, o que em alguns casos é acompanhado do culto. É o caso das Ninfas em toda a zona ocidental da Península Ibérica.

O balneário converte-se num lugar privilegiado de sincretismo e onde convivem diferentes modos de entender a “mesma” realidade religiosa, o modo pré-romano imemorial e o modo romano importado e aculturador; no entanto, ao tratar-se de um lugar onde a piedade pessoal não deixa espaço ao culto oficial, o fenómeno de mutação procede de um modo tal que exemplifica a aculturação profunda.

 

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Ninfas  
 

O culto das Ninfas, divindades dos mananciais no mundo romano (provenientes de uma especialização do que são as Nmphai gregas, dotadas de um campo de acção muito maior que abarca a natureza em geral – montes, árvores, água, pradarias: Halm – Tisserant / Siebert 1997) está estendido por todo o império (Toutain 1907, 380-284; Herter 1936; Heichelheim 1936).

O seu âmbito de protecção não se cinge especificamente às águas termais, mas à natureza em geral. Dada a omnipresença da água no modo de vida romano (a cidade romana caracteriza-se pela disponibilidade deste elemento, tendo-se requerido para ele dispendiosas obras), as Ninfas aparecem não só em explicitas menções culturais, mas também como motivos iconográficos e, em alguns casos, meramente profanos. A presença de estátuas de Ninfas nas termas ou em casas particulares pode em muitos casos desempenhar funções meramente decorativas, completamente alienadas do religioso.

O mesmo acontecia na Grécia, já que muitas estátuas na sua configuração monumental utiliza-as em obras civis sem qualquer conotação religiosa, mas em qualquer dos casos o culto das divindades aquáticas estava bem presente.

Cantava a bela Ninfa, e co’os acentos,

Que pelos altos paços vão soando,

Em consonância igual os instrumentos

Suaves vêm a um tempo conformando.

Um súbito silêncio enfreia os ventos,

E faz ir docemente murmurando

As águas, e nas casas naturais

Adormecer os brutos animais.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto X

 

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"Cidades de Água"  
 

As nascentes de água termal estão determinadas pela história geológica, no entanto a acção circundante pode transformá-los em lugares atractivos para o desenvolvimento cívico ou qualificá-las como zonas de repouso com sofisticadas vias de comunicação, contribuindo para o desenvolvimento local.

Ambos exemplos podemos encontrar na Península Ibérica. No sul peninsular os balneários surgem nas margens de aglomerações populacionais e das principais redes de estradas. Não se encontram cidades de água (Aquae), o que revela que o desenvolvimento cívico se realizou seguindo critérios diferentes dos expostos anteriormente.

Na zona galaica, o balneário converteu-se em alguns casos no cerne do desenvolvimento comarcal e urbanizacional (por exemplo Chaves e Orense).

 

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Uso dos Balneários  
 

O tipo de cura desenvolvida nos balneários galaicos não era maioritariamente a cura medicinal, mas a religiosa. A importância das divindades aclara que se tratava de uma prática pré-romana. Temos que supor que existiam instalações balneares antes que os romanos se importassem com as suas soluções arquitectónicas. Infelizmente, o conhecimento deste tipo de achados é extremamente difícil dada a qualidade dos datados arqueológicos de que dispomos.

As Ninfas resultam da invocação principal no contexto termal, não só porque eram uma forma de culto compreensível por um grande número de pessoas mas também porque resultavam de uma opção sincrética não abstracta. As Ninfas representavam o manancial termal, não eram divindades curativas de índole termal, mas que moravam na água e eram personificações da mesma.

Outro rasgo específico do termalismo galaico é a profusão e importância dos centros. É a zona peninsular na qual existe uma maior concentração de instalações balneares e de lugares denominados Aquae. O uso da água termal, pelo que vimos, era prática habitual na época pré-romana e no domínio romano os lugares de água converteram-se, nalguns casos, em centros de urbanização e de organização da rede viária. A complexidade social que define o modo romano de organização incide na zona galaica na eleição de lugares termais (que aparecem debaixo da protecção de uma divindade) como lugares de consenso. A toponímia romana deixa claro que as cidades de água só teriama denominação da população em cujo território estavam situadas (Aquae Celenae dos Cileni; Aquae Querquennae dos Quarquerni, Aquae Flaviae dos Aquiflavienses) e, em alguns casos, resultam da carga de cidades principais do território dessa população (como ocorre com Aquae Flaviae ou Orense).

A rede de comunicações estrutura-se em torno destes centros, Aquae Flaviae converte-se no centro fundamental dos Aquiflavienses e a Bracara-Asturica define-se passando pelos locais termais da zona.

Em resumo, o balneário na zona galaica apresenta características que a convertem num lugar privilegiado na estruturação da vida comunitária, isto porque, como centro curativo e religioso, resulta num lugar de atracção de povos diversos e de interacção cultural, porque em torno deste manancial forma-se uma cidade de um envolvente extenso, como ocorre com Chaves e Orense.

 

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Conclusão  
 

A característica fundamental que resume todo este trabalho baseia-se na importância do culto termal em toda a Península Ibérica. Não são somente testificadas várias iconografias às divindades, mas também a uma boa parte das Ninfas. A razão deste interesse pelo culto termal vem, com certeza, do benefício medicinal deste tipo de água, mas esses poder provinha do seu carácter sagrado, das divindades que habitavam o seu interior e que são a sua personificação.

 

A importância da epigrafia no contexto termal no ocidente hispânico ilustra-nos o grau de aculturação ao qual foi submissa a população local. A facção romana de mudar a cultura, a língua e grande parte do nome das divindades sofreram uma mutação; mas o fenómeno do culto termal manteve-se inalterável; a divindade na maior parte das regiões ibéricas é a causa directa da cura, o que nos faz pensar que as técnicas medicinais “científicas” romanas seriam menos aceitáveis por toda a Península Ibérica.

 

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Notas bibliográficas  
 

(1) - LIZOP,R. Les Convenae et les Consoranii, Toulouse-Paris 1931 pág. 269

(2) - ETIENNE,R. "Le voyage pyrenéen d' Auguste en 26-25 a. J.-C." Annales du Midi 64,1952 págs. 5-14

 

Bibliografia  
 

F. Arias/P. Le Roux/A. Tranoy Inscriptions romaines de la province de Lugo Paris 1979, p. 88 num. 58.

GIL,L. Therapeia Madrid 1969, passim y esp. Págs. 33 e 137

GRENIER,A. Manuel d'archéologie gallo-romaine IV,2 Paris 1960 págs. 460

Halm-Tisserant (M.)/Siebert (G.) 1997: "Nymphai" LIMC VIII, 1,891-902; 2,584-597

Heichelheim (F.) 1936: "Nymphai 1" RE 33, 1581-1599.

Herter (H.) 1936: "Nymphai 1" RE 33, 1527-1581.

J. Santos/M. Cardozo "Ex votos as Ninfas em Portugal", 1953, pp. 53-68 (citado em Santos/Cardozo 1953).

Ribeiro (J. Cardim) 1983: "Contributos para o conhecimento de cultos e devoções de cariz aquático relativos ao território do Município Olisiponense" Boletim da Assembleia distrital de Lisboa 89,1, 331-369.

Santos (M.L. Estancio da Veiga Afonso dos) 1972: Arqueologia romana do Algarve, II, Lisboa.

Toutain (J.) 1907: Les cultes païens dans l'empire romain I,1: Les provinces latines. Les cultes officiels; les cultes romains et gréco-romains, París.

Vease C. Martín "La estructura geológica de la Península Ibérica y sus aguas termales" Termalismo antiguo. Mesa redonda, Madrid (1991) UNED, 1992

Webster (J.) 1995: "Sanctuaries and Sacred Places" Green (M. ed.) The Celtic World, Londres/Nova York, 445-464.

Wild (R.A.) 1981: Water in the Cultic Worship of Isis ans Sarapis, Leiden (EPRO 87).

 

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